domingo, 12 de janeiro de 2014

Malandrices da minha infância

(Para mudar um pouco o ambiente após o último artigo)

Todos nós temos "histórias" na nossa meninice e recordei-me desta ainda a propósito do desaparecimento do Eusébio, pois foi graças a querer imitá-lo que apanhei uma das quatro maiores tareias...

Passavam poucos dias após o épico jogo com a Coreia, o país estava eufórico com a nossa presença nas meias-finais, e o nome que se falava era Eusébio. Ora cada miúdo gosta de tentar imitar os ídolos e foi assim que o fiz... da pior maneira!
Em 1966 o leite e pão eram distribuídos em casa pela leiteira e pelo padeiro. Ora no leite, a leiteira fazia primeira paragem no primeiro andar, onde morávamos, pousava a enorme bilha cheia de leite e despejava a quantidade necessária para um utensílio que, se a memória não me falha, chamava-se exactamente de leiteira. Enquanto decorria essa operação, aparece o puto traquinas armado em bom (eu, como já devem ter percebido) e digo-lhe "Sou o Eusébio e vou dar um chuto na bilha!". Puxo do pé, finjo que vou atingir a bilha e... não meço bem a distância e acerto em cheio na bilha que cai, entornando todos aqueles litros pela escada abaixo! Glup! Ao ver aquela cena, pensei que o mundo me ia cair em cima e não me enganei! Levei tantas! Ainda por cima as escadas tinham uma abertura que dava cá para baixo para a entrada e aquilo devia parecer mais as cataratas do Niagara em versão "leital". Os meus pais tiveram que lhe pagar todo o leite (como eu só tinha 6 anos ainda não recebia semanada senão tinha ficado sem ela uns bons tempos), a desgraçada da leiteira só chorava que tinha ficado sem leite para os restantes clientes e eu berrava por outro lado pela tareia que levei...
Não me perguntem como é se lavou a escada pois nessa altura estava fechado no quarto, dorido, a carpir mágoas...
E pronto, acho que nunca mais tentei imitar o Eusébio...

Claro que a esta hora estão a questionar-se se esta foi uma das quatro grandes tareias, como terão sido as outras? Pois se esta foi a segunda do rol, a primeira devia ter uns 4 anos e é "edificante". Hora de almoço, por alguma razão qualquer, ou mais provavelmente sem razão, decidi que não queria comer a sopa. Diálogos:
Eu - Não quero a sopa
Mãe - Come a sopa
Eu - Não quero a sopa!
Mãe - COME A SOPA!
Eu - NÃO COMO!
Mãe - COMES E COMES MESMO!
Eu - NÃO COMO E NÃO COMO MESMO!
(atenção, cena eventualmente chocante) E acto imediato, pego no prato com as duas mãos e atiro-o com força para o chão! 
O que eu levei!!! E claro que comi outra sopa...
(Para quem me acha muito paciente e incapaz de ataques de fúria, pois esgotei-os na meninice...)

A terceira, a minha mãe tinha pedido para não fazer barulho pois doí-lha muito a cabeça e ia-se deitar, tendo fechado as persianas. Persianas que davam para uma varanda que também tinha acesso pela cozinha e, sei lá porque me deu para fazer aquilo, fui para aí atirar a bola com toda a força contra as persianas, vezes seguidas. Sai lá de dentro a minha mãe com um sapato na mão, eu ainda disse uma desculpa esfarrapada de "a bola é que ia bater na persiana" (era pouco criativo...) e o resultado final... o habitual.

E para acabar, e se as duas anteriores foram de maldade, esta quarta foi como a do Eusébio, uma brincadeira que acabou muito mal. 
Ia haver uma festa de anos, penso que da minha irmã, e uma rapariga chamada Isabel estava sentada na cozinha, a ajudar a fazer qualquer coisa. Vejo uma garrafa de óleo Fula, daquelas de litro e meio de plástico como as das garrafas de água, e como estava tapada, viro-a ao contrário, colocando-a sobre a cabeça da Isabel e digo "Vou despejar-te este óleo!". Claro que era só na brincadeira, até porque a garrafa estava fechada. Só que... a tampa não era como actualmente que é de enroscar, era de pressão. E soltou-se... despejando o litro de óleo pelo cabelo abaixo da pobre rapariga, para meu horror! 
A desgraçada esteve 3 a 4 horas a lavar o cabelo para conseguir tirar todo o óleo e eu... já sabem!

E se não houve uma quinta vez é porque ninguém soube que pus Tomar sem luz durante 3 horas. Como já passaram quarenta e muitos anos, já posso confessar pois o "crime" já prescreveu.  
Num sábado à tarde tinha visto na televisão rugby. Como achei os postes da baliza muito altos, logo idealizei ir para um descampado ali ao pé e tentar rematar a bola suficientemente alto que passasse por cima do fio da electricidade duma fila de postes que cruzavam esse descampado. Logo à primeira, acerto numa caixa de junção em forma de meia-bola branca que unia nos postes os fios, esta partiu-se e cai o fio, a faiscar, para o chão (por sorte não me atingiu...).
Pernas para que te quero que só parei em casa. Fiquei cheio de medo que alguém tivesse visto e, influenciado por filmes de "polícias e ladrões" como se dizia na altura, só imaginava que a polícia ia cercar ali a casa para me levar. 
Passado um par de horas, recordo-me da minha mãe comentar o quanto estava a demorar esta falta de luz. E eu, muito sossegadinho no meu cantinho... Nunca ninguém soube!

E pronto, agora já sabem os "podres" da minha infância (ou melhor, sabem as piores...) e que me recordei a propósito do Eusébio e do chuto na bilha. E ainda dizem que não se deve chorar pelo leite derramado. Eu chorei e muito!    

12 comentários:

  1. Muito me ri...eras um traquinas e sabes uma coisa? Só se perderam as que não te acertaram :)...hehehe.
    Olha, eu era um santo quando era miúdo, e só comecei a descambar a partir dos 12/13...muito a tempo portanto. Uiii...se começasse a escrever as minhas peripécias era preciso um blogue extra, ou vários volumes...mas é melhor não, os meus ricos paizinhos ainda hoje pensam que eu fui, sou e serei um santo ;)
    Abraço João e obrigado por este bocadinho que me pôs bem disposto

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    1. Então foste ao contrário de mim que depois comecei a atinar :)

      Um abraço

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  2. eheheh o que eu me ri :)
    Na altura pode não ter tido piada, mas hoje contar essas traquinices sabe bem ou nao sabe? :)

    Recordar é viver :)

    beijinhos

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    1. Hoje sim, na altura não! He he

      Beijinhos

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  3. Já me fartei de rir!
    Mas tu és mesmo das estatísticas até as tareias tens contabilizadas!
    Eu acho que me safei porque a minha mãe e o meu padrasto, bem como a restante família, eram "pacifistas" e também não era assim tão malandro ou então era pior porque ninguém dava pelas malandrices!
    E não tenho memoria nenhuma do Eusébio e do jogo da Correia só me lembro de ter a mania dos astronautas e de saber tudo sobre as missões Apolo!
    E olha que a "coisa" entranhou-se de modo em mim que ainda hoje ando na lua!
    Um abraço.

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    1. Sei quantas foram porque me lembro bem delas! :)
      E quem na altura não vibrava com as missões Apolos? :)

      Um abraço

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  4. LOOOOL

    Espetáculo!

    Essa da sopa eu já presenciei cá em casa. Mas não deixei que os putos chegassem a atirar o prato ao chão... Acho que o resultado final teria sido o mesmo! :)

    Abr

    PS: A do apagão em Tomar é a minha preferida!

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    1. Também é a minha preferida pois como ninguém soube, nunca levei! ;)

      Um abraço

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  5. Por trás desse ar de santinho de quem não parte um prato ehehe...escondia-se um puto traquinas.
    João, tu eras um terror!!!!

    Beijinhos e....porta-te bem hehehehe :)

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    1. O que vale é que esgotei o terrorismo todo na infância! :)

      Beijinhos e vou tentar portar-me bem... :)

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  6. Vieram-me as lágrimas aos olhos de tanto rir.

    Estou em crer que aquele terror todo foi amenizando à medida que ia aumentando o gosto pela corrida, pois não existe desporto mais anti-stress do que correr e conseguirmos ultrapassar os nossos limites.

    Abraço e rápida recuperação.

    Fernando Varela

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    1. Não, eu tornei-me muito sossegadinho e incapaz de fazer mal a uma mosca logo para os 12/13 anos e só comecei a correr aos 45

      Um abraço

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