domingo, 24 de março de 2019

Duros 30 para os ovos moles

Passaram-se 5 semanas de Sevilha, faltam 5 semanas para Aveiro. Hoje marcou assim o meio caminho entre as duas aventuras e nada melhor que um treino de 30 para ir preparando a Maratona na bela cidade dos ovos moles.

A semana passada ficou marcada pela muito boa Meia de Lisboa mas o dia de hoje foi o inverso. Um treino muito difícil onde só a ____ permitiu cumprir a distância (preencher o espaço em branco com a palavra que melhor se adequa, teimosia ou persistência).

Costumo dizer que uma preparação para uma Maratona é um carrossel de emoções, neste caso também está um sobe e desce de sensações. 
Tudo provocado pela parte intestinal, com todas as suas sensibilidades, intolerâncias e a gastrite crónica aos saltos.
Daí advém as tais dores nas pernas provocadas por essa instabilidade. 

Estando tudo bem, como no domingo passado, a corrida torna-se uma maravilha, estando com isto, transforma-se num sofrimento. A respiração sempre bem mas as dores nas pernas são difíceis de suportar. E como corremos com as pernas...

Ontem comecei a sentir estes problemas e hoje ao acordar apercebi-me de imediato que iria ter uma manhã difícil.

O plano era (e foi) ir de Carcavelos até Cascais com a Tânia, dar a volta na Boca do Inferno, regressar ao local de partida com 20 quilómetros, a Tânia ficar aí e eu continuar por mais uma dezena.

Aproveito já para agradecer à Tânia a sua companhia pois teria sido muito complicado chegar sozinho até aos 20 com as pernas a não pararem de refilar. Assim, chegado aos 20, um número já começado por 2, os 30 ficavam mais na mira.

A coisa aguentou-se da forma possível até aos 18, depois ficou muito difícil. Felizmente a parte mental estava boa e levou-me até aos 30 onde cheguei com uma marca muito alta, óptimo da respiração, parecia que não tinha feito nada, mas as pernas em estado deplorável.

Na 5ª feira iniciei um tratamento para este problema mas ainda vai demorar até estabilizar.

A sensação que tenho é que se estiver num dia sem estes referidos problemas, como na Meia da Ponte, estou em óptima forma para efectuar uma boa Maratona. Mas se estiver num dia como hoje... não sei se conseguirei chegar à meta, sinceramente. Não imagino como hoje faria mais 12. Vamos esperar que tudo regresse à normalidade.

Para a semana, Corrida dos Sinos em Mafra. Até lá, divirtam-se!

domingo, 17 de março de 2019

Na Meia de Lisboa: Em 10 foi a 2ª

A pouco mais dum quilómetro da meta (obrigado Luís Duarte Clara!)

Hoje estou muito feliz pela prova que efectuei!

Algo de estranho passou-se na semana anterior, como relatei na Corrida Salesianos. Fez na sexta-feira uma semana, acordei com dores musculares nas pernas. Mantiveram-se até quinta-feira. E nesta sexta, tal como apareceram do nada, do nada passaram!

Tanto na Corrida Salesianos como nos treinos durante a semana, foi sempre um esforço pois as pernas não queriam, em claro contraste com a parte respiratória que estava muito bem. Se fosse por estar a exagerar, o cansaço seria geral e não centrado apenas ali. Permanece assim um mistério o que sucedeu mas o que interessa é que já passou.

Nesta sexta acordei e senti as pernas bem. Fiz um óptimo treino e comecei a pensar que se calhar ainda iria realizar uma boa Meia.

E que Meia estou a falar? A Meia-Maratona de Lisboa, mais conhecida pela Ponte 25 de Abril. 
Foi aqui que tudo começou com a minha prova de estreia em 2006, então na Mini. Como já contei várias vezes, um colega meu ao saber que ia à Ponte, perguntou se era Mini ou Meia, tendo eu respondido cem por cento convicto "Mini! Meia não faço nem nunca farei!". 
Na realidade, nessa altura via os 10 quilómetros como o máximo dos máximos e chegar à dezena era já algo a passar todos os meus limites. 
Pois é... no ano seguinte estava ali na Ponte a estrear-me em Meia-Maratona, faz amanhã 12 anos.

Hoje foi a 10ª vez que realizei esta Meia. Com a Mini, 11ª presença neste evento e a 10ª que atravessei a Ponte. Confuso? É que no ano passado não se passou a Ponte devido a intempérie (partiu-se do eixo Norte-Sul).

Ontem, sábado, continuava a sentir as pernas bem e comecei a sonhar em baixar das 2 horas, coisa que nos dias anteriores seria impensável, devido ao tal problema. Pus-me então a calcular o ritmo necessário.

Para mim, baixar de 2 horas em Meia é marcante e não são muitas as vezes que o consegui. Hoje foi a minha 62ª Meia e por 50 vezes fiz uma marca na casa das 2 horas. Com a de hoje, e já me estou a adiantar, consegui baixar do par de horas por 12 vezes.
Mas é curioso constatar que nas primeiras 46 apenas baixei por 3 vezes e nas últimas 16 por 9...

Hoje, acordei e senti logo que iria ser um bom dia. Estava muito focado para isso. De tal forma que ao receber uma mensagem de incentivo por parte da Isa e Vitor, respondi que algo me dizia que iria ser uma boa Meia. Ora eu, que costumo ser muito prudente nas previsões, se respondi assim é que estava mesmo muito decidido.

Ao contrário do que é habitual nesta prova, este ano fui o único representante da equipa. No entanto estive acompanhado pelo Serafim Sousa do CAL, simpático atleta que não conhecia mas que o Carlos Cardoso tinha pedido se era possível levantar-lhe o dorsal. Ora amigo de meu amigo, meu amigo é e o tempo passou rápido até à hora da partida.

Ao arrancar, tive uns primeiros metros de análise e depois coloquei o ritmo ideal para conseguir o desiderato. Nessa altura pensei "pronto, o ritmo já cá está, agora é ver se o aguento 21 quilómetros"

Por volta dos 3, comecei a acreditar plenamente que o iria alcançar. Há dias que sigo de tal forma estabilizado que tenho a certeza que vou aguentar a distância sem quebra.

E lá fui eu, estilo relógio suiço, sempre a dar-lhe bem e a controlar, sabendo que a margem não era grande, portanto não podia haver qualquer quebra.

Os quilómetros foram passando, sempre a esforçar-me bem e a sentir-me feliz e quando falo em relógio suiço, a parte mais impressionante foram os 5 quilómetros entre os 15 e os 20 pois foram todos no mesmo segundo! Incrível! Sempre 5.28, nem mais nem menos 1 segundo que fosse.

No último reuni as forças que ainda restavam e cortei a meta em 1.58.26 e muito mas mesmo muito feliz com a minha prestação!
Em 10 participações nesta prova, foi a minha 2ª melhor marca apenas batida pelas 1.57.15 de 2017. Em termos gerais, é a minha 10ª melhor marca entre 62 Meias (o record é de 1.51.26 no ano mágico de 2017)

De realçar que as condições meteorológicas foram boas e quase por medida. Com sol desde o seu nascer até à hora da partida, o que foi bom para não estarmos com frio a aguardar a corrida, e na hora da partida o sol escondeu-se atrás de nuvens e ficou uma temperatura mais para o baixinho, o que é sempre uma preciosa ajuda.

Uma rica manhã onde o único ponto negativo é o ter que repetir o que já aqui escrevi várias vezes nestas provas mais participadas, uma crítica aos atletas que nos postos de reabastecimento deitam as garrafas no meio da estrada em vez de colocarem nos caixotes para o efeito ou atirarem para a berma, esquecendo-se que atrás vêm colegas seus de desporto que ao pisarem uma garrafa ainda com água, podem torcer um pé. O cúmulo deu-se, uma vez mais, onde ofereciam laranjas e bananas e a estrada estava cheia de cascas. Ora será que não pensam que casca, em especial de banana, é altamente escorregadia e há um pelotão atrás de si? Mais respeito, senhores atletas!!!

A organização foi recompensada com record de participação. Estava em 10.582 (2017) e hoje classificaram-se 10.603 atletas. Foi a 6ª vez em Portugal que uma prova chegou aos 10 milhares, passando esta a ser a 2ª mais participada no nosso país. A 1ª mantém-se a São Silvestre do Porto com 10.880 em 2015.

Entre 10.603, classifiquei-me em 5.011 e no escalão 241 entre 509, portanto na primeira metade em ambos os casos, o que é raro em mim.

Em resumo e repetindo-me, estou muito feliz e orgulhoso com esta minha corrida, feita 4 semanas após a Maratona de Sevilha e a 6 semanas da de Aveiro.

Para a semana, treino de 30 quilómetros. Próxima prova de hoje a 2 semanas na clássica Corrida dos Sinos onde irei buscar o meu 11º sino (já estou perto de ter um carrilhão!).

Uma boa semana a todos e sejam felizes!



A medalha de participação

quarta-feira, 13 de março de 2019

A 25 de Maio, Corrida da APAV - Vamos apoiar quem apoia!


A Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) é uma instituição particular de solidariedade social, que tem como missão o apoio às vítimas de crime, suas famílias e amigos, prestando-lhes serviços de qualidade, gratuitos e confidenciais e contribuir para o aperfeiçoamento das políticas públicas, sociais e privadas centradas no estatuto da vítima.

A violência doméstica é um flagelo que parece não ter fim e que inexplicavelmente tem aumentado nos últimos tempos. 

As notícias alertam-nos para os assassinatos mas ficam no anonimato os inúmeros casos de violência física, emocional, social, sexual, financeira e qualquer outra que a crueldade crie.  

E este grave problema não é de alguns mas sim de todos. Todos podemos e devemos ajudar, havendo inúmeras formas de o realizar.

Uma é apoiar a APAV com a nossa participação na 16ª Corrida de Solidariedade APAV que se irá realizar no sábado 25 de Maio pelas 19 horas, com partida e chegada na Reitoria da Universidade de Lisboa.

Após 14 anos com a organização directa do ISCPSI (Instituto Superior de Ciências Policiais e Segurança Interna), com partida nas suas instalações e chegada nos Jerónimos, desde o ano passado que esta prova tem a organização técnica da Xistarca e o seu centro na  referida Reitoria da Universidade de Lisboa.

O evento conta com uma corrida de 10 quilómetros e uma caminhada de 5.

As inscrições estão abertas e todas as informações podem ser obtidas nas seguintes ligações:




No ano passado, devido à mudança de organização, só foi possível anunciar a prova com pouco tempo de antecedência, o que prejudicou a participação mas este ano o tempo é suficiente. 
Os atletas são solidários e decerto que muitos irão inscrever-se nesta prova por uma causa como a da APAV.
Vamos todos apoiar quem apoia os que tanto necessitam!


domingo, 10 de março de 2019

Uma óptima manhã na Corrida Salesianos!

Ena tantos! (Tânia, Isa, Sandra, Eberhard, Raúl, Isabel, eu, Paulo e Vitor)

A armada 4 ao Km (Eberhard, Sandra, eu, Vitor e Isa)

5 maratonista de Sevilha e falta aqui a Isa para sermos 6 (Raúl, Tânia, eu, Vitor e Paulo)

Uma excelente manhã embelezou a Corrida Salesianos, aliando à corrida um são convívio, tudo realizado com uma organização exemplar.
Para ajudar à festa, esta 4ª edição registou record de participação. Após os 1.037 iniciais, seguiram-se 955, 856 e hoje 1.146. A estes números somam-se 1.004 classificados na Caminhada, número que peca por defeito pois houve caminhantes que não colocaram o chip.

Após a minha presença no ano passado, quis repetir a prova e esta ficou como a mais curta (10 km) no plano entre duas Maratonas (Sevilha já disputada a 17 de Fevereiro e da Europa em Aveiro a realizar a 28 de Abril).

A sensação final da minha prestação foi assim-assim. Positiva a parte respiratória que seguiu sempre muito confortável mas negativa as pernas, muscularmente falando. 
Na sexta acordei cansado das pernas e decidi cancelar o treino desse dia (e quem me conhece sabe que para cancelar um treino é apenas por razões fortes). Ontem a sensação manteve-se e hoje também. É estranho pois se estivesse a abusar sentiria cansaço geral mas está localizado apenas na parte muscular das pernas.

Fiz a prova a um ritmo muito certo, parecia um relógio suiço, como se comprova no quilómetro a quilómetro onde apenas o último foi diferente, para mais rápido.

Segui quase sempre sozinho, tendo apenas tido um curto pedaço que fui com a Cheila. E só deu para ir com a Cheila pois ela estava numa muita meritória missão de acompanhar 4 cadeiras de rodas, pois caso contrário não conseguiria acompanhá-la, pois tem outro ritmo.

Ao 4º km (obrigado Isa!)
Mais à frente, acompanhei um atleta que desconheço o nome mas que achei curiosa uma sua observação. Disse que achava estar a ficar velho para correr. Perguntei-lhe a idade, 43! Disse-lhe que só tinha começado aos 45, para o ano fazia 60 e portanto para não se preocupar com isso que ninguém é velho para correr desde que saiba dosear consoante as suas capacidades.

Cortei a meta em 54.37, mais 39 segundos que 2018 mas seguramente menos cansado. Tal como já referi, a pulsação ia como se não fosse nada de especial. As pernas é que iam no limite. Estranho...

Após a corrida, espaço para mais agradável convívio com amigos. E não há nada melhor!

Para a semana farei a minha 10ª Meia-Maratona da Ponte 25 de Abril (11ª presença contando com a Mini na minha 1ª prova de sempre). E por falar na Ponte, à hora que a prova vai começar, e seguindo hoje por percurso que se repetirá, já o calor apertava. Mas atleta que corre ao ar livre, tem que correr em qualquer condição... 😊

Uma boa semana a todos!


domingo, 3 de março de 2019

Na Meia de Cascais (com objectivo extra)

É o cartaz que o diz: Elite na Meia de Cascais! Ou os cinco 4 ao Km presentes: Vitor, Isa, eu, João Cravo e Aurélio

Herdeira dos 20 Km de Cascais, realizou-se hoje a 3ª edição da Meia-Maratona de Cascais, como sempre com o superior selo de qualidade da HMS e que contou com 2.113 classificados, numa constância de registo, dado que nas 3 edições temos a seguinte sequência de classificados: 2.167 - 2.104 - 2.113, portanto sempre na casa dos 2.100.
Os vencedores foram Nikki Johnstone e Joana Fonseca. Nikki Johnstone é alemão e tem uma particularidade, o muito peculiar recorde de homem mais rápido do mundo a correr uma Maratona disfarçado de Elvis Presley com 2:37:04 em Berlim 2018. Sabemos que transformaram o Elvis num mito mas existirem records mundiais para quem corre disfarçado de Elvis Presley, não será demais? :)

O tempo esteve óptimo para a prática da modalidade, o que implica quase ausência de vento. E falar em ida ao Guincho, é sempre recear o vento pois se está vento na vila, no Guincho está muito vento! Mas até isso colaborou com todos nós. (Este parágrafo não ficou muito bem pois repeti a palavra vento 4 vezes! Olha, passou a cinco!)

Tinha uma certa incógnita de como reagiria nesta Meia. Como se recordarão, a Maratona de Sevilha foi muito dura pelo desarranjo intestinal antes da prova e que condicionou não só a corrida como a recuperação que foi a mais lenta recuperação das minhas 11 Maratonas. (Agora repeti a palavra recuperação. Ai ai que hoje o texto não está muito bem...)

Como sempre, dei um descanso de 5 dias e recomecei os treinos no sábado com 10 km feitos na demasiada lenta marca de 1.10, imaginem!!! No dia seguinte novo treino de 10 e melhorei para 1.06, para no dia seguinte já ter sido 1.00, com a 1ª metade em 32 minutos e a segunda em 28, demonstrando estar no bom caminho. Continuei a progredir mas de 5ª a sábado foram dias muito duros com o falecimento do meu cunhado.

Esta Meia, sendo duas semanas após Sevilha, foi idealizada para ser a um ritmo calmo e foi assim que parti. Até pouco antes dos 3 km fui junto ao João Cravo mas depois acalmei o ritmo para perto dos 5 tornar a apanhá-lo e não mais o largar.

Ao 2º Km (Foto Fernanda Silva)
Ao 4º Km (Foto Fernanda Silva)
O ritmo não era tão calmo como idealizei mas sendo confortável tornava-o bastante bom.  

Pouco depois dos 10 senti que estava com força para aguentar bem o resto e sentindo o João Cravo bem, o objectivo passou a ser tentar colaborar o que pudesse para o João bater o seu record de Meia-Maratona que se situava em 2.08.52

A média dava para 2.07 mas após o retorno aumentámos o ritmo qb e fomos ganhando posições.

Aos 16 o João já manifestava algum desgaste mas sem prejudicar o cronómetro. Tentei incutir-lhe alguma motivação para não descrer, estando tão perto do objectivo, numa altura que o relógio apontava para 2.06 alto a 2.07 baixo. Sem quebra, o objectivo iria ser alcançado.

Já a cheirar a meta no último quilómetro o João foi buscar as energias de reserva e já a descermos para a meta vi que até talvez fosse possível o minuto 5. Muito apertado mas vamos a isso. 

Cortámos a meta em 2.05.59 nos nossos relógios, o que foi um bónus adicional. O João bateu assim o seu record por quase 3 minutos. E essa perspectiva impediu-me de sentir o esforço pois estava focado em tentar ajudar no que fosse possível.

No iniciar o relógio na partida e ao desligar na meta, pode haver uma muito pequena diferença de 1 segundo pois nem sempre conseguimos fazer exactamente no ponto certo ao centímetro.  E foi o que sucedeu. Ao consultar a classificação, a constatação que afinal fizemos 2.06.00
Para mim nada altera mas foi pena para o João pois assim o seu record ficava na casa das 2.05 mas isso é o menos. Esteve muito bem, como está qualquer atleta que logra a sua melhor marca de sempre. Muitos parabéns João! :)

Foi o meu 21º melhor tempo em 61 Meias-Maratonas, claramente na primeira metade, o que para uma Meia sem atacar nos limites foi muito bom. Igualmente muito positivo ter passado aos 10 km no lugar 1847 e terminado em 1661, significando que ultrapassámos 186 atletas nos últimos 11 quilómetros, sinal que íamos bem.

Para a semana a única corrida mais curta até à Maratona da Europa em Aveiro, a Corrida Salesianos com 10 quilómetros. E por falar na Maratona... faltam 8 semanas!

Uma óptima semana a todos!




quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Magia em Sevilha - Acto 3

Tudo gente feliz de medalha ao peito: Eu, Raúl, Tânia, Isa e Vitor

Muitos famosos ilusionistas, de um Houdini a David Copperfield passando pelo nosso Luís de Matos, manipulam a sua arte duma maneira que se confunde, aos nossos olhos, com magia, tal o seu grau de ilusão. Naturalmente não há magia. Pelo menos ali. Agora que há alguma magia em certas ocasiões, começo a acreditar que sim. E dou o exemplo da Maratona de Sevilha. Há ali qualquer coisa!

Acto 1 - 2014, 5 semanas antes uma infecção pulmonar, e recordo que sem pulmões a pleno não há resistência, colocou a hipótese de concretizar a Maratona de Sevilha no maior risco. Não estava minimamente em condições sequer para uma Meia ou menos e encontrava-me completamente derrotado. Mas... antes da partida algo mexeu em mim e alterou-me por completo. E fiz aquela que considerei na altura, e mantenho, como a corrida mais inteligente, feliz e emocional. A corrida da minha vida!

Acto 2 - 2017, a Maratona onde estabeleci o record que se mantém e que não sei se alguma vez será batido. Uma corrida perfeita sempre com uma força e energia especial.

Acto 3 - 2019. O que sucedeu? Para o saberem, terão que ler as próximas linhas.

Sexta-feira, arrancámos de manhãzinha para Sevilha. Isa, Vitor e eu, todos a caminho da sua 11ª meta em Maratona, e a Mafalda, imprescindível companheira, fotógrafa e staff. 

Chegada ao apartamento que alugámos. E que excelente escolha num condomínio à volta dum pátio sevilhano e uma varanda de 80 metros quadrados a dar para esse mesmo pátio, onde se estava que era uma maravilha!

Pouco depois da chegada, ir buscar aquilo que não ficamos descansados enquanto não temos na mão, os dorsais!

Com os dorsais na mão e uma bonita mensagem atrás
Há que derrubar o muro dos 30! 
Sábado reservado para regressar à Feira da prova para participar na Pasta Party, uma pequena volta e descansar que havia que preservar energias. E na Feira encontrarmos a Tânia, Raúl, Paulo e Francisco, a que se juntaria depois o Diogo num grupo de 5 estreantes na mítica distância.

Já no apartamento, há quem me pergunte por mensagem se estou bem, se não há mazelas, ao que respondo que está tudo perfeito. Mas... na altura de deitar já sentia algo de estranho. E ao acordar ainda mais. Ida à casa de banho e confirmação que estava com um forte desarranjo intestinal. "Oh pá, a sério?!?", mas logo tentei relativizar e só focar no que era preciso fazer para chegar ao grande objectivo, a meta. 

Como se sabe, tenho grande sensibilidade intestinal, além dumas quantas intolerâncias. Em casa é fácil controlar mas fora, por mais cuidado que se tenha, pode haver surpresas. E foi o que sucedeu na pior altura. 


À saída do apartamento, em pleno pátio, com os bonitos corta-vento que ofereceram
Chegados à zona da partida, mais uma ida à casa de banho para mais uma desgraça e sempre a tentar focar e ignorar o que se estava a passar.

Altura para encontrarmos a Tânia, Raúl e Francisco, com os sempre presentes nervos e excitação à flor da pele, seja a 1ª no seu caso, seja a 11ª no nosso. Maratona é Maratona e está tudo dito.


Francisco. Raúl, Tânia, eu, Isa e Vitor. Nesta altura ainda estava frio, no final já passava dos 20
Uma selfie para a posteridade
Ainda conversámos com um português que ao ouvir que éramos tugas veio falar connosco e que, coincidência, é tomarense como eu.

E hora de partida. Um momento sempre muito emotivo e que os cientistas definem da melhor maneira, apelidando de momento "glup!".

Esteja em forma ou não, a fase inicial duma Maratona, e estando em forma essa fase inicial é até aos 30, caracteriza-se por ir sempre muito bem disposto, feliz, divertido e a interagir com tudo e todos (mas não se interprete que vou a brincar, vou a dar o que posso mas consigo realizar essa multi-tarefa). Porém, no domingo nunca em qualquer momento senti conforto. Derivado desse inesperado problema, fui sempre desconfortável, a sentir a barriga muito inchada e pesada (parecia que estava de 3 meses) e a ter que gerir períodos de maior crise, apelando sempre à força mental para abafar pensamentos negativos.

Nos primeiros metros segui com a Tânia e Raúl, um casal que muito significava para mim o serem bem sucedidos pois acompanhei a par e passo toda a sua evolução, grande esforço e empenho para concretizarem o seu sonho.
Depois cheguei-me à Isa e Vitor e tentei seguir um pouco com eles para ver se me distraía da dificuldade que estava a sentir. A respiração estava boa mas as pernas não correspondiam. Estavam pesadas e a parte muscular queixosa. 
Como vi que estavam a ir um pouco acima do que podia, fiquei para trás e a partir daí teria 39 quilómetros pela frente para aguentar.

E esse, entre os 3 e os 6 quilómetros, foi talvez o período de maior crise. Crise ao constatar que as pernas e músculos não estavam bem. Crise ao recear que o fantasma da Rock'n'Roll de Lisboa 2013 pudesse reaparecer. E esse pensamento doeu-me e tentei ir reagindo.


Para a foto ainda havia um sorriso
Após os 6 a coisa melhorou um pouco, mas sem nunca andar bem, e aos 9 nova crise. 
Sabia que ao atravessar a ponte saindo da Cartuja, cerca dos 12, que a Mafalda estaria aí. 
Fui aguardando por esse momento mas ao passar por ela fiz sinal que a coisa não ia bem.


A fazer o sinal à Mafalda que a coisa não ia bem
Aos 15 essa crise atenuou. Reapareceu mais à frente e é essa a história destes 42 km realizados num percurso diferente das anteriores vezes. Tal deveu-se ao encerramento do Estádio Olímpico de la Cartuja por razões de segurança que obrigam a obras urgentes. 
A partida e chegada foi no Paseo de las Delícias, encostado ao célebre Parque Maria Luísa. 
Notei que este ano o apoio popular não foi tão forte como antigamente. Ou explicando melhor, esteve semelhante nos locais onde a Maratona já passava mas nos novos era fraco, talvez por o público ainda não estar habituado ou desconhecer mesmo o novo traçado, o que será a explicação mais provável. 




A Maratona costuma começar aos 30 quilómetros como já se percebeu, para mim começou desde o tiro de partida. Ia colocando objectivo a objectivo e depois dos 30 era a mítica passagem pela Praça de Espanha que estava na mira, sabendo que a Mafalda também iria aí estar.  

Ao entrar no Maria Luísa, foi inevitável comparar com 2014 e 2017 e como aí seguia, em contraste com o sentimento de arrasto desta feita. 
Entro na Praça de Espanha, olho para um lado, para o outro, e não havia maneira de ver a Mafalda até que a vislumbro. A Rosário, mulher do Francisco, veio ter comigo e muito simpaticamente deu umas passadas ao meu lado, não só incentivando como aproveitei para saber como seguiam os restantes. E saber que o Paulo e o Diogo já tinham finalizado nuns brutais 3.40! Que estreia! Soube como a Isa e Vitor tinham passado e onde a aplicação informava onde seguiam a Tânia e Raúl.
Tudo isso me tranquilizou. Muito obrigado Rosário! E a propósito, o Francisco também cortou a meta numa marca espectacular!

A ser informado da evolução dos restantes


E a ficar feliz com as notícias
Lá segui, agora com o fito na Catedral, desta feita para ser feita em sentido contrário ao dos anos anteriores. 

Muito sofrimento mas havia algo que me ia espantando. O relógio estava a ser simpático com os tempos que ia apresentando. Sabe-se lá como!

Após a Catedral, e já a ter visto uma placa começada pela número 4, segue-se o desejo de ver o 41. Será após a fonte, penso. Curvo e noto que a placa ainda está muito lá para a frente. Como é possível estes quilómetros finais serem tão looooongos?!?


Hum... não ia com boa cara...
Na passagem do 41, voluntários frisam bem, em jeito de festa, que é para o último quilómetro. Mas nem consigo reagir. Pala para baixo e tentar chegar à meta. 
Tal como os anteriores, este último quilómetro teve muitos mil metros. Ainda esperancei que a adrenalina da quase chegada fizesse efeito, como por exemplo em Valência onde corri esses mil metros sempre eufórico, euforia que se manteve bem após a meta. 
Nesta, sempre a arrastar, a tentar colocar uma perna à frente da outra. Mas ao mesmo tempo sem perceber o que se passava para o relógio apresentar aquele tempo.

Curvo pela Glorieta de Buenos Aires, vislumbro a meta. Tento ver a Mafalda, sem sucesso (soube depois que se fartou de gritar por mim mas não ouvi). Quase na meta, o Tiago Teixeira da RunPorto grita por mim. Aí começo a levantar os braços e corto a meta. Consegui!!!!!!


CONSEGUI!!!
Eh pá mas custou...
Esse segundo de força logo foi abafado pelo enorme cansaço que sentia. Parei, pus a mão na cara, fiquei assim um pouco e lá fui andando avenida fora, a um décimo da velocidade dum caracol lento, até reencontrar a Isa e Vitor que, mais uma vez, fizeram uma fantástica Maratona!


Visto de outra perspectiva, primeiro braços no ar (Foto Tiago Teixeira)


E logo caídos com o peso do cansaço
E tempo? Pois... aqui é que reside o busílis... 4.51.50 a minha 3ª melhor marca em 11 Maratonas, a apenas 10.10 do record realizado no melhor momento de forma que alguma tive. 
Como foi possível?!? Já perceberam porque repito que há magia em Sevilha? Só pode!!!

Altura então de aguardarmos por um momento muito emotivo que foi o termos o prazer de ver a chegada da Tânia e Raúl! Sem palavras!
Foi o corolário de todo o seu empenho em cumprirem à risca o seu plano. E recordar que em Junho passado a Tânia tinha dificuldade em correr 10 quilómetros... O querer é uma coisa fantástica. Muitos parabéns, maratonistas! 

E todos estamos de parabéns! Nós e os mais de 9 mil classificados. Cada um com a sua Maratona, o seu objectivo, a sua história. E uma palavra de força para os 840 que partiram mas não cortaram a meta.

Tudo isto é a Maratona! E são momentos que se colam bem fundo e não nos largam mais.


A foto da praxe a sinalar quantas estão feitas e já a precisar de fechar uma mão para representar 10
Armada 4 ao Km novamente em grande
Algumas notas adicionais. Pela primeira vez não tomei qualquer gel. Tinha-os comigo mas estava indisposto para os tomar. Limitei-me a tomar uma cápsula de sal aos 10, outra aos 20 e comer uma banana aos 26.

É sobejamente conhecido aquilo que passa pela cabeça por tantos no momento que costuma ser o de maior crise, por volta dos 37. Com o esgotamento físico e mental, é usual pensar-se que não se entra em mais alguma, para ao cortar a meta só se pensar "quando é a próxima, quando é a próxima?!?"
Pois no domingo calhou a minha vez. Aos 37 decidi "Já não vou à Maratona de Aveiro!". Mas isso não era eu, era o esgotamento a falar. Cortei a meta e ao recordar-me disso só pensei de mim para mim "Claro que vou!". Venha ela!


De regresso ao pátio mas agora já medalhados
Quanto à recuperação, está muito mais demorada que das últimas. Se na de Valência na 2ª estava assim-assim e na 3ª já quase recuperado, nesta a coisa está difícil. Sem dúvida que pelas condições em que a fiz.

Um muito obrigado a todos pelo vosso apoio!

E como nota final, faz hoje 9 anos que nasceu este blogue! E o que associo de imediato é aos amigos muito especiais que me permitiu conhecer! E isso é valioso demais!


Fotografias que a Mafalda tirou (1.127)
Parte 1
Parte 2
Parte 3


Custou mas consegui!
A medalha. Réplica da conquistada por Abel Antón quando se sagrou Campeão Mundial da Maratona 1999, há 20 anos atrás precisamente aqui em Sevilha

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Regresso a um lugar mágico!


A uma semana do grande dia, hoje já só treinei 12 km e a partir de agora não vou correr todos os dias. Apenas 10 na 2ª, 10 na 4ª e 5 na 5ª. 

Está quase e mal posso esperar pela que espero seja a minha 11ª meta em Maratona. Em comparação com a anterior, Valência no início de Dezembro, sinto que estou com os níveis de resistência semelhantes mas a velocidade não. Estou um pouco mais lento. Mas em Valência tinha o problema do tornozelo e agora está tudo bem. 

Sevilha é um lugar mágico para mim! Estreei-me na mítica distância em Dezembro de 2012 na Maratona de Lisboa. A 2ª teria sido na edição inaugural da Rock'n'Roll Cascais-Lisboa em Outubro 2013 mas um inesperado problema físico (soltou-se a hérnia do hiato), obrigou-me à muito dolorosa desistência aos 15,5 facto que me perseguiu e marcou nos tempos seguintes. A 2ª iria então ser em Fevereiro 2014 em Sevilha. Mas 39 dias antes apanhei uma forte infecção pulmonar. Como sabemos, sem os pulmões a trabalharem em condições, não há resistência. Não pude preparar a prova nem muito menos estava minimamente capaz duma Meia, quanto mais duma Maratona. Mas ia tentar, para ao menos ficar consciente que tinha tentado tudo.

Antes estava completamente derrotado pois sabia que não era possível. Mas sucedeu algo parecido com uma espécie de milagre. Antes da partida, alterei-me por completo. O poder da mente tem forças que desconhecemos e fiz nesse dia a corrida da minha vida. Como defini na altura, a corrida mais inteligente, divertida e emocional que alguma vez tinha feito. Ainda hoje não sei como foi possível mas a verdade é que aconteceu mesmo! Foi mágico!!!

A minha fotografia de eleição. Impossível explicar o que estava a sentir naquele momento a metros da meta!
E marcou-me para sempre ficando Sevilha num lugar muito especial no meu coração. Nesse dia, sinto que ganhei carreira de maratonista. Se tivesse sucedido o mesmo que na anterior, não sei se teria continuado a tentar. 

Quando estava a sair de Sevilha, sabia que iria voltar. Não em 2015 pela proximidade com Paris e 2016 com Barcelona, mas regressei em 2017. 

E que melhor regresso! Na minha melhor forma de sempre, dizimei o meu record à Maratona, marcando 4.41.40 
Sevilha tornava a ser mágica para mim!

O tempo no relógio é de prova. De chip foram 4.41.40, o meu record
Quem quiser recordar ou conhecer o que escrevi na altura, os relatos de cada uma delas estão aqui: 2014 - 2017

Também no dia que saí de Sevilha em 2017, sabia que ira regressar. E cá vou. Com a mesma ambição de sempre. A meta! Fazer o melhor possível que possa e consiga e cortar a meta. O que para um atleta como eu, é o equivalente a uma medalha de ouro olímpica. 

Em princípio este é o último artigo antes do relato da que espero seja a minha 11ª. 
Muito obrigado a todos os que me apoiam e incentivam. 
A todos os que irão estar presentes, muita força! Em especial a quem se vai estrear e passar a pertencer ao maravilhoso círculo dos maratonistas.

Não quero terminar sem dar uma palavra a uns dos 12 que fizeram parte da equipa de apoio na minha estreia em Maratona e que está a passar por um momento complicado de saúde. Muita força Egas Branco!!!

Estamos todos contigo, Egas!