terça-feira, 6 de dezembro de 2011

A Maratona e o tigre


Há muitos anos atrás, ouvi a história dum homem, não me recordo de que lugar, que tinha um tigre em casa. Apesar de já adulto, foi tratado desde bebé e era completamente pacífico. Melhor, portava-se como um gatinho mas em ponto grande.
Um certo dia, o dono a fazer uma obra, cortou-se. Sangrou e o tigre deu uma lambidela, como fazia muitas vezes, mas não em sangue. Ora, desta vez, ao sentir o sangue, veio ao de cima o seu real instinto, e atacou a mão do homem. Depois, ao aperceber-se, recuou. Mas o seu instinto tinha sido mais poderoso e alterou-o para o resto da vida. Nunca mais foi o mesmo e acabou por ser largado numa reserva.
Apesar da, digamos, educação que recebeu, o sabor do sangue transportou-o para outro patamar mais adequado à sua verdadeira essência.

O que tem esta história a ver com Maratonas?
Eu explico. No verão de 2007, inspirado por um livro do Dean Karnazes, adoptei o sonho de concluir uma Maratona como o meu Olimpo. O máximo que alguma vez poderia chegar, a minha medalha de ouro, o meu sonho maior. De tal maneira que fico de imediato alterado só de pensar estar a finalizar uma Maratona.
Tenho plena consciência, e apesar do que muitos e bons amigos me dizem e que se vão zangar comigo por ir afirmar tal, não nasci nem tenho capacidades para uma Maratona. Mas isso não é impeditivo. Eu hei-de fazer uma!
O tempo final é irrelevante, penso inclusive que o meu limiar estará nas 5 horas, quero é concluir e conhecer o tal famoso muro.

No entanto, tenho um outro objectivo para concretizar primeiro, baixar dos 50 minutos aos 10 quilómetros.
Sinto que estou quase mas nunca sabemos o que o futuro nos reserva. Em Abril de 2007 estava mesmo a alcançá-lo e torci um pé. No final de 2008, quando me preparava para o atacar, uma semana antes parti um pé.
Não estou a agoirar nenhum outro percalço, longe de mim, mas apenas para realçar que o futuro é uma página em branco.
Quando concretizar esse feito, dedicar-me-ei, com muita cabeça, a preparar uma Maratona.
Luto para que até Julho, consiga esse sonho dos 49 que me persegue há quase 5 anos. (E aqui para nós que ninguém nos ouve, julgo que a minha insistência e persistência já mereciam ter sido recompensadas)
Mas em 2007 também era uma questão de dias e estamos quase em 2012. Enquanto não estiver, não está, la Palisse não diria melhor.

Apesar do que me aconselham, duma Maratona no estrangeiro pois o apoio do público é meio caminho andado, por várias e diversas razões gostava que fosse em Lisboa, mesmo conhecedor que o seu percurso não é fácil. Uma das razões é desconhecer como irei estar nos dias seguintes e aqui estou em casa.

Será 2012? Será mais para a frente? Tudo depende, como já afirmei, dos 49 aos 10, porque a partir do momento que vou treinar para a Maratona, esse objectivo fina-se.

E porquê toda esta conversa agora? No domingo já estava em polvorosa e na 2ª acordei virado da cabeça. O desejo da Maratona, que esteve sempre latente, redimensionou-se. Eu estive na partida duma Maratona, por ir fazer o primeiro turno da Estafeta. Eu corri os 10 quilómetros iniciais duma Maratona com os maratonistas à minha volta.
Eu senti-me o tigre a saborear o sangue. E a partir daí, o tigre nunca mais foi o mesmo...

9 comentários:

  1. João... eu acho que pensas bem... começar em casa dá-nos uma certa segurança!

    Mas quem sou eu? Que experiência tenho eu? Quando tantos outros sabem mais... mas eu pensei assim e por isso mesmo continuo em Lisboa.

    Também acertas-te no nervosismo de inicio de prova quando nos cruzamos... eu tinha na minha cabeça a "página em branco" bem presente.
    Este ano não estava tão confiante, os meus treinos foram muito piores, falta de tempo e problemas familiares... contei com a minha resistência e a minha força. Ainda bem que o fiz porque apesar do tempo no placar eu sei o que poderia ter feito e para mim isso é que conta.

    É certo que o meu "padrinho" Jorge não entende esta vertente, eu também sinto a outra, a da disputa a de nos superarmos, mas como se diz por ai? Ainda sou jovem (não o sendo!!!)e para o ano há mais...

    Para ti desejo o melhor nesses treinos futuros, neste caso não poderei dizer "agarra o boi pelos cornos" (perdoa a expressão), mas poderei dizer "agarra ees tigre pelo pescoço"!

    Gostei de te ver e até a uma próxima.

    Beijinhos

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  2. João

    Que tema lindíssimo. Não esperes pelos menos de 5' ao km. Há quem corra mais que 5' ao km e tenha concluído a Maratona no tempo que queres para ti, 5h.

    É só uma questão de te mentalizares que não te faltarão amigos para te apoiar nessa aventura.

    Força João, começa a pensar nisso e sê o tigre já na próxima Maratona.

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  3. :) Gostei da analogia. O meu sonho (ainda) não é a maratona, mas fazer uma prova de Triatlo. Sempre nadei e nado, corro agora e já andei de bicicleta. Por isso, era tentar juntar tudo num só dia. O Senão é que para fazer isso não basta ter umas sapatilhas. É preciso fazer algum investimento e a altura é péssima para isso.
    Quem sou eu, modesto corredor que começou há pouco, a dar bitaites nesta matéria, mas, eu acredito que quem faz uma meia-maratona também fará a prova raínha do atletismo. Mais treinos longos e, sobretudo, pelo que leio, ganhar uma forte dose de mentalização. É mais difícil vencer o esforço psicológico que o esforço físico. E por causa disso, eu sugeria que essa tentativa fosse feita 'lá fora'. Entendo que Lisboa tenha o 'factor casa' a favor, mas há que reconhecer que muito pobrezinha em termos de incentivo. Ali no Cais do Sodré, havia de facto muito apoio, sobretudo de estrangeiros, mas de resto, eram apenas um grupo grande de pessoas a correr numa Lisboa deserta a um Domingo de manhã. Vencer o factor psicológico será sem dúvida muito mais fácil com público a aplaudir e incentivar. Pelo que oiço, a Maratona de Sevilha é fantástica. Só que essa, ou tentava em Fev 2012, ou só em 2013 :)
    Para já fica o apoio e incentivo para essa conquista dos 49. Força nisso!

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  4. Daqueles textos de ficar emocionado, a sonhar o dia todo!
    Não tens condições para fazer uma maratona?
    Eu nunca tive condições nenhumas e fiz quatro mais duas ultras!
    Abstenho-me de contar aqui as minhas mazelas pois o rol seria imenso e corria o risco de comover algumas almas mais sensíveis (estou aqui a rir-me) mas olhem que nem para o, na altura, serviço militar obrigatório eu fui apurado!
    Tu tens todas as condições para fazeres não uma mas varias maratonas e não ficas por ai! Depois da maratona vais ficar diferente e dar-te umas “febres” para correres outras aventuras!
    Quanto ao tempo que podes fazer na maratona há várias formulas, mais que estudadas, para saberes isso.
    Mas a primeira maratona é sempre para experimentar e ser cauteloso, Mais vale pecar por excesso de cautela de que por excesso de confiança.
    A partir da segunda maratona é um contra relógio!
    Acompanhar-te na tua primeira maratona não vai dá para mim que apenas me arrasto, e mal, pelo alcatrão em andamentos miseráveis mas, e se for em Lisboa, estarei presente a gritar por ti a plenos pulmões!
    Abraço campeão.

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  5. Quando começei a correr e não vai à muito tempo, e me falavam em maratonas eu dizia que só os malucos è que se punham a correr 42km durante três ou quatro horas, hoje digo que gostaria de fazer uma ou duas pelo menos todos os anos.
    Para que isso seja possível é só colocar na cabeça de que somos capazes,depois ter apenas tempo para treinar.
    Abraço

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  6. Amigo João
    sei que tens essa ideia de baixar o teu tempo aos 10 mas não pode ser desculpa para não avançares para uma 1ª maratona, quem sabe se esse teu objectivo aos 10 não acaba por surgir naturalmente.
    No meu caso nunca persegui marcas, apenas gostava de ter baixado das 3h30 na maratona, sabia que era capaz e naturalmente acabou por acontecer na 9ª vez que corri uma maratona (a de Sevilha em 2011), contigo passa-se o mesmo, sabes que és capaz de baixar o teu tempo aos 10 e isso irá acabra por acontecer mais cedo ou mais tarde.
    Vamos lá João, a maratona espera por ti.
    Abraço,
    António Almeida

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  7. O espanhol Ricardo Abade quer fazer 500 maratonas em 500 dias. Nas pernas, sem falhar nunhum dia, já estão 433...
    O exemplo serve apenas para definir que é a nossa mente quem manda. Se a mente acredita, o corpo irá de bom grado; se a mente não está segura, o cansaço, o frio, a chuva, o calor, o trabalho... e uma centena de outros problemas não deixarão que os sonhos se concretizem.
    Depois há a parte técnica; fazer os 10 km abaixo de um determinado limite de tempo é um objectivo muito diferente de querer completar uma Maratona. Tem a ver com uma questão de ritmo e de resistência... Ambos vais conseguir, João, e nisto nem preciso conhecer-te pessoalmente. Os amigos vão dar o empurrão que falta. O resto, acontecerá naturalmente. Quem anda no desporto tem espírito ganhador, por isso é que eu digo que esses objectivos serão alcançados (só não o seriam se acontecesse o que aconteceu comigo, o que desejo que não te aconteça).
    Um abraço e fico à espera de ler essa crónica gloriosa!

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  8. Belíssimo texto, João! E penso que vais mesmo conseguir atingir o objectivo de ser maratonista.
    Acima de tudo, diz-me a minha experiência de modestíssimo desatleta, sem nenhumas aptidões físicas especiais, que completou três vezes essa distância mítica, que acima de tudo é uma questão de treino (que é difícil, claro, por exigir método, disciplina e persistência) e de muita força de vontade e capacidade de sofrimento, para ultrapassar as barreiras naturais de uma prova muito longa para fazer muito perto dos limites físicos.
    A propósito, algumas pessoas ficam admiradas quando conto que gostei sempre de fazer esta prova sem muletas de qualquer espécie. O que não significa que não tivesse aproveitado a companhia de quem fazia a prova, ou parte dela, no meu andamento.
    A explicação é simples: queria fazer o meu melhor! No entanto isso não me impediu de ter chegado a correr para trás, na minha primeira maratona, para ir pedir auxílio no posto de abastecimentos mais próximo para um atleta em dificuldades, caído e em pânico (falta de oxigénio). No entanto, esses escassos minutos perdidos, para mim não contam. Fizeram parte dessa aventura maravilhosa que foi fazer a primeira maratona (em 1983, no Autódromo do Estoril).
    É um momento ímpar na vida desportiva (e se calhar não só). Mas não esqueço nunca os (as) amigos (as) que me apoiaram antes, durante e depois da prova, incitando-me e dando-me os abastecimentos ao longo dos 42,195 km. Uma delas já infelizmente desaparecida quando tinha ainda muito para dar.
    Desculpa o arrazoado. Foi apenas para te dizer que julgo que tens todas as condições para cumprir este objectivo! Um abraço, que quero repetir se possível quando cortares a meta dos 42,195 km!

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  9. Caro João Lima,

    Estou longe de querer denunciar uma verdade insofismável, mas tanto eu como muitos (muitos mesmo) outros que conheço bateram os seus recordes de 10k, 15k e Meia quando estavam em pleno plano de preparação para a Maratona. Quando entrar no seu último mês de treino para os 42k estará tão naturalmente bem preparado que os recordes irão cair. Esperar pelos 49' para iniciar a Maratona? E porque não preparar a Maratona para chegar aos 49'?
    Deixe-me dar uma última sugestão de quem se apaixonou pela Maratona à primeira vez que a correu: esqueça Lisboa, esqueça o Porto, esqueça até Sevilla. E para primeira experiência, esqueça o cronómetro e embrenhe-se na festa de correr com mais 35 ou 40 mil em Paris, Berlim ou Londres. Seja um anónimo e saboreie numa cidade estrangeiro os dois dias antes e os dois depois de uma maratona. Porque dois dias depois ainda se cruzará num restaurante ou no aeroporto com quem certamente esteve na mesma luta que o João. Nessa altura e nesse olhar, o João valida o seu sonho: é um maratonista.

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