quinta-feira, 27 de março de 2014

Mistérios da vida dum corredor


Mistérios da vida dum corredor * (tradução da palavra corredor no final do artigo)

Provavelmente será um bom tema para fascículos, dado que todos nós que corremos temos alguns mistérios que nos custa entender. 

O que hoje venho falar baseia-se no que me aconteceu (uma vez mais) no domingo. Comecei a aquecer e a coisa não saía. Estava motivado para correr mas fisicamente não conseguia desenvolver e à medida que dava passadas lentas, sentia o cansaço, sem ainda me ter esforçado. Parei um pouco, retomei e ainda pior. Sem força e sem velocidade. Logo no dia que queria ensaiar um ritmo melhorzinho. Paciência! Vou para a linha de partida, arranco e estou 100% diferente. Sinto-me com força e capaz de aguentar na perfeição um esforço maior. E, de início a fim, faço uma excelente corrida.

Como justificar uma mudança tão radical em escassos minutos? Como explicar que isto é algo que acontece frequentemente? Tantas e tantas vezes, sinto-me bem no aquecimento e a corrida limita-se a ser normal ou às vezes até fraca. E na maioria dos meus melhores tempos, estou num dia que parece não ir sair nada e que irei arrastar-me. 

Haverá uma razão lógica ou a lógica de correr está nos antípodas da lógica racional?
Acontece com muitos de vós? Conheço um caso na equipa em que a atleta em questão é conhecida por nos seus melhores resultados ter dito antes que nesse dia não ia sair nada de especial. Nós já brincamos com o facto mas o que é certo é que ela sente mesmo isso e depois transfigura-se. Mas enquanto demora um pouco a passar dum lado para o outro, no meu caso é imediato. Começo e de imediato sou o oposto. E nem precisaria de mencionar aqui Sevilha onde estava aterrorizado uma hora antes pois não sentia a mínima força e na hora da partida arranquei para a corrida da minha vida. Ok, neste caso pode-se argumentar no efeito psicológico, dum sentido e doutro, e da parte emocional que nos domina num desafio desta envergadura.

Recordo, como outro exemplo duma corrida normal, a Marginal à Noite de 2011. Não me sentia com força, tentei correr para aquecer e, coisa muito rara em mim, nem me apetecia correr. Dá-se a partida e arranco de faca nos dentes, percorrendo os 8 kms a uma média impensável para mim de 4.54!!! (olha se nesse dia a corrida tivesse mais dois quilómetros...)

Exemplos poderia dar muitos mas a verdade é que nós corredores temos vários insondáveis mistérios! 
Que outros mistérios têm?  

* Tradução da palavra corredor - Corredor era, segundo consta, a palavra antiga com que se denominava quem corria. Segundo reza a história, terá saído alguma promoção que passou todos de corredores para runners. Ora como não fui notificado dessa promoção, continuo a intitular-me um corredor. 

28 comentários:

  1. Viva campeão!
    Olha eu tenho está “pancada” nunca me sinto bem, nem com vontade de correr, antes de um treino e depois, na esmagadora maioria dos casos, o treino corre bem e acabo um “homem novo”!
    Quando vou treinar cheio de vontade e muito bem-disposto é certo e sabido que o treino vai correr mesmo muito mal!
    Já em provas não há nada a fazer na partida estou sempre ultra nervosos, com vontade de me enfiar pelo chão abaixo ou de fugir dali! E isto seja nas provas que foram objectivos importantes na minha vida, como as maratonas, como seja na prova mais simples do mundo!

    Olha eu também sou um corredor e vou morrer corredor! Nunca serei um runner do mesmo modo que o meu longo amor (e alguns conhecimentos na matéria) pela fotografia me permitem fazer auto retratos mas nunca irei fazer essa coisa dos selfie!
    Qualquer dia em Portugal fala-se Inglês e o Português é um língua alternativa!
    É no que dá sermos um povo tão “parolo”!

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    1. Sofres do chamado síndrome pré-competitivo :)

      Um abraço

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    2. Credo já tenho tantas "doenças" essa agora não sabia! Mas pré-competitivo com quem? Na actualidade até as lesmas me ganham!

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  2. Tb ma acontece o mesmo....e não tenho explicação para isso...olha, na última S.Silvetsre do Porto, estava cansado antes de começar (andava a correr como um desalmado para chegar aos 3.000km em 2013), no aquecimento sentia-me preso, e depois voei num percurso complicado que fiz em 40,50 e qualquer coisa....bem sei, que fui puxado por uma lebre de luxo, mas as pernas eram minhas, e as mesmas que estavam estafadas antes de começar....o contrário tb já me aconteceu, sentir-me muito bem e depois...bosta...olha...são dias :)
    Abraço

    P.S. Ainda no domingo de manhã, na Antena 1, apanhei um programa sobre corrida...estavam a entrevistar uma malta da corrida, de um grupo de Lisboa....parecia que estava noutro país...eles eram running para trás, running para a frente, gadgets, night.....um exagero completo. Confesso que de vez em quando tb uso uns termos estrangeiros (Trail por exemplo em vez de Trilhos), mas acho que se está a cair num exagero completo....mas pronto, para as marcas o Running é mais "cool", chega com certeza a mais gente e por consequência vende mais.
    Reconheço que não sou um "fundamentalista" nesta questão, mas sempre que me lembro (sim, sou um distraído por natureza) uso os termos em português ..... Trilhos do Perneta = One-legged Trail ...hehehe...teria ficado bonito :)

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    1. One Leggeg Trail seria de morte!!!! :))))

      Um abraço e pelos vistos o mistério é de vários :)

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    2. Carlos, é uma parvoíce, tens toda a razão.. Cada vez que vejo uma loja qualquer a anunciar alguma coisa como "Semana do Running" até me dá arrepios.. Já para não falar das night runs, color runs, secret runs, pqp runs..... Ah, e ultimamente tenho visto grupos de pessoal que gosta de dar corridas juntos intitularem-se "Running Crew" blhááááááá´(som que estou a fazer a vomitar)

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    3. Ahh...isso ....nesse programa de rádio tb usaram o "Running Crew"......isto está tudo cada vez mais desvirtuado, cada vez mais é um grande negócio...a mim não me apanham em nenhuma dessas pseudo-corridas tipo Color-Run u coisa do género, que com corrida nada tem a ver...mas nada contra, vai quem quer.

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    4. Como dizes, vai quem quer, e eu gosto é de corridas, não é "disso".
      É o aproveitamento do nome corrida, sem dar nada em troca à corrida...

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  3. Como participo em muito poucas provas acabo por ir sempre motivado, mas acontece-me o que descreves nos treinos, principalmente nos longos. Às vezes até durmo mal na sexta feira a pensar que o longo vai correr pessimamente, depois começo a correr e a coisa sai. Às vezes é o contrário. Há dias bons e maus, há muitas coisas que podemos controlar, mas outras tantas que nem sabemos por onde começar...

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    1. Pois... somos mesmo assim...
      Nas ultimas 6 noites antes da Maratona, andei a dormir apenas umas 4 horas, e na véspera, nem 3 foram. E depois... :)

      Um abraço

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  4. Esse mistério é o denominado Estado de fluxo. Quando estamos em estado de fluxo, o controlo e a tomada de cinsciência para o desempenho são superiores a preocupações (fazer um grande tempo), ansiedade, etc. Dai depois o desempenho ta,bém ser óptimo, pois os nosso srecursos estão apenas focalizados na tarefa :)

    Explica-se muito bem com este diagrama:
    http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/f/f6/Challenge_vs_skill.svg/300px-Challenge_vs_skill.svg.png

    Essa da anglicanização do desporto, acontece também no trabalho.São todos managers, chief executive, marketing specialist e o diabo a sete. Subscrevo por inteiro o que o Jorge Branco disse... é parlo. Além disso, "John Lime, long distance runner" não me soa bem, hehe!

    Abraço

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    1. Interessante explicação... Obrigado! :)

      Um abraço

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  5. Acho que o problema é da MALDITA DA CABEÇA.

    Durante muito tempo que os primeiros 30' de cada treino eram para mim um suplício, mas passado esse tempo a coisa começava a correr (não "running") bem.

    Também quando ia para as provas e via os outros corredores a aquecer achava um erro fazer o mesmo, pois para aquecer teria que fazer cerca de 2 kms e depois iriam faltar-me as pernas no fim.

    Com o tempo fui mudando esta postura e tenho feito alguns aquecimentos pré-prova, mas em quase todos eles tenho as pernas presas, a impressão que a prova vai correr muito mal, que me doi o tornozelo, o joelho, o dedo grande do pé, o olho esquerdo, eu sei lá.

    Mas o que é certo é que quando chega o tiro de partida, parece que me deram umas pernas novas e tudo aquilo ficou para trás.

    Tudo isto, atribuo-o à MALDITA da CABEÇA, o que é ainda agravado quando vamos para a prova com o stress de fazer aquele tempo, e falo por mim.

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    1. Há sempre duas maneiras de ver a coisa. Eu diria antes a BENDITA DA CABEÇA que nos permite fazer provas tão boas! :)))

      Um abraço

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  6. Não sei de que atleta estás a falar... ;)
    Tu sabes que eu quando digo isso é porque me sinto mesmo assim e depois às vezes (nem sempre) sai-me uma coisa espectacular. Vá-se lá perceber!

    Outro mistério completo é o tempo que demoro a aquecer. Tantos e tantos treinos, tantas e tantas corridas que demoro uns 5 km a aquecer!

    Mas a corrida (qual running qual quê!!!) é mesmo assim, tem mistérios que não conseguimos perceber e isso só a torna mais interessante. VIVA A CORRIDA!!!!

    Beijinhos amigo e até amanhã.

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    1. Cada um de nós tem os seus mistérios! :)

      Beijinhos amiga e até amanhã!

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  7. Olá João!
    Já me tem acontecido, ao sair de casa para uma corrida, não ter vontade nenhuma de fazer a prova, chego a pensar que não me devia ter inscrito. Chego lá, faço o aquecimento e ....parece que sou outro, a prova acaba por correr muito bem. Ainda hoje não percebo.
    Posso comprovar o que dizes sobre a tal atleta :)

    Abraço

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    1. Parece ser algo de certa forma habitual entre os mais diversos atletas...

      Um abraço e força para o Pastor!

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  8. Olá João! Revejo-me muito no que descreveste e penso que deve ser comum a muitos de nós. Tanto que acho que muitas vezes, apesar da preparação para uma prova ser muito importante, há ali também uma percentagem de sorte quanto ao "atleta" que vamos ser nesse dia. Depois há trocas de motivação/energia no espaço de minutos ou kms.... como explicar este fenómeno?! Mas acontece.
    Beijinhos
    PS: Não é "runner", é "adepto do running"! ihih ;)

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    1. Já o outro dizia que as corridas são como os melões, apenas depois de abertos se sabe o que valem.

      Beijinhos :)

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  9. Já me aconteceu tantas vezes isso antes das provas.. Mas quando vou para os blocos de partida a adrenalina começa me a percorrer o corpo de uma maneira incrível, mesmo dores que tenha, desaparecem por magia!

    Abraço!

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    1. Sim, a adrenalina tem também uma forte componente

      Um abraço

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  10. As nossas vidas de Corredor(*) estão cheias de mistérios... ;) Ou talvez nem tanto, só que não os sabemos explicar, se bem que a parte psicológica deva ter um peso significativo nesses mistérios.

    (*) - enquanto continuar a existir a Língua Portuguesa, continuarei a ser um Corredor, aquele que corre, não o corredor divisório de uma casa ou de um manicómio :) e a Corrida há-de ser sempre Corrida, apesar de neste fim semana ter sido bombardeada com termos como Runner e Running :) - e se por um lado não importa porque afinal o que nos une é a Corrida em si, seja em que língua for, importa sim porque a Língua Portuguesa vai morrendo...e se há termos estrangeiros de difícil e exacta tradução, outros há em que não necessidade absolutamente nenhuma de usar o termo em língua estrangeira. Mas isto é a minha opinião, claro, escusado seria dizer...

    Boa semana João e corre , Run John Run!

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    1. Olá Ana

      Concordo em absoluto contigo!

      Beijinhos :)

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  11. E temos dias que o aquecimento corre mal e a corrida também. :)

    Sim, acontece-me essa situação, talvez mais porque não participo assim em tantas provas.
    Acho que a nossa parte psicológica tem muito a ver com essa questão, poderá haver por aí alguém que a possa explicar.

    Curiosamente as provas que me têm corrido melhor têm sido aquelas que nem lhes dou muita importância. Quando digo isto quero dizer que não ando uma semana a sonhar com elas, e no final as coisas correm bem.

    Bons treinos

    Manuel Nunes

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    1. O psicológico sempre a comandar!

      Um abraço

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  12. Eu acho que a malta não anda a tomar os comprimidos, the pills!
    A ansiedade é lixada, a mente também.
    Não faço muitas provas e sinceramente apenas 1 vez a prova me correu mesmo mal.
    Isto no sentido em que não queria estar ali, corrida de St. António 2013. Olha é o meu e ainda RP da distância! Ahah. Claro que passei pior noutras provas, cansaço, esforço, mas isso faz parte, perguntar o que estou aqui a fazer...fiquei fulo comigo o ano passado em Sintra, a subida foi tão dura que apenas me apetecia bater em mim! Mas...aí entra o lado competitivo, concentração, focar o objectivo e siga (ok...no meu caso vão indo que já vos apanho...na meta).
    O truque da descompressão e retirada de pressão também é bom, ah, não treinei, isto hoje não estou para ai virad@...e assim vamos mais soltos, descontraídos.
    Resumindo...a cabecinha manda, o corpo segue.
    Quando começar a correr a sério, sei lá, maratonas, Trail ( vá, provas em Trilhos) talvez me dê a ansiedade.
    Por agora mantenho a descontração, apenas compito comigo ( e com a D. Maria..que faz meia prova a correr e outra a andar...).
    PS: noutras idades e lides cheguei a vomitar antes ( ok e depois mas isso são outros quinhentos) das provas, por isso já dei para esse peditório.
    Faz parte do processo, cada um tem o seu.
    Abraço

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