sexta-feira, 25 de abril de 2014

A Liberdade de correr

Isa, Vítor, Marta, Orlando, eu, Jorge e João

Há 40 anos atrás fiquei na cama.
Tinha-me levantado para ir para o liceu e a minha mãe disse-me que não havia aulas porque estava a decorrer um golpe de estado.
Voltei  para a cama onde fiquei a mandriar até ao meio-dia, naquele gozo que se tem aos 14 anos por num dia de aulas estar na cama até tarde.
O pior foi quando depois do almoço quis vir para a rua, para as habituais voltas de bicicleta ou jogatanas de bola. A minha mãe não queria com medo da revolução que ainda não tinha atingido o ponto clímax. Eu argumentava que isso era em Lisboa e estávamos na Parede. Consegui levar a água ao meu moinho com a promessa de não sair de ao pé da porta. Promessa não cumprida, como se pode imaginar. Como é que ia andar de bicicleta só ao pé da porta?!?

Só mais para a noite comecei a perceber o que se passava. E nos dias seguintes a entender o significado do acto e de palavras que deveriam ser tão naturais como Liberdade.
E compreendi então alguns episódios do passado. O medo que se sentia. A vez quando o meu pai me falou pior. Estávamos em 1969 e iam realizar-se eleições (fantoches). Tínhamos vindo a Lisboa e estávamos a passear pelos passeios da Avenida da República. Num determinado prédio (ainda me recordo qual e hoje indiquei-o aos meus colegas de equipa), estava escrita na parede a palavra "Não". Ver uma palavra escrita numa parede e logo o Não, despertou-me a atenção e naturalmente perguntei "Porque é que está aqui este Não?". A resposta do meu pai foi um violento "Cala-te!", com um olhar fulminante como nunca lhe tinha visto nem tornei a rever. Não me atrevi a dizer mais nada nem a ter a mínima reacção. Não entendia porque é que fui ralhado daquela forma por uma mera pergunta, quando já tinha feito diabruras de fazer perder a paciência ao maior santo e o meu pai não tinha reagido como nessa altura. Ainda hoje recordo na perfeição esse momento. Momento que nos dias a seguir ao 25 de Abril entendi perfeitamente!

Tocante discurso de quem estava preso há 40 anos, apenas por pensar doutra forma
Há 40 anos enterrou-se um clima de medo e terror. De pobreza limite e falta de oportunidades. De exploração, humilhação e desrespeito absolutos. E duma guerra estúpida e desnecessária. E aqui torno a recordar algumas conversas que ouvia em surdina entre os meus pais, preocupados por o seu filho estar a crescer e ter que ir para a guerra. Que seria o meu destino se não tivesse existido o dia que hoje faz 40 anos. E abro aqui um parêntesis para desmistificar um dos mais errados mitos sobre o coveiro Salazar. Há quem o elogie por alegadamente nos ter "salvo" da 2ª Guerra Mundial, quando o que nos salvou foi a nossa posição geográfica e o facto de Espanha ter atravessado a Guerra Civil. Portanto nenhum mérito desse senhor. Mas quem o elogia por esse falso acto, esquece-se de referir que foi o mesmo que nos enterrou em 3 guerras simultâneas, guerras perdidas à nascença e que mutilaram e mataram muitos jovens e dizimaram a economia nacional onde metade do orçamento ia para esse esforço de guerra, levando todo o nosso ouro.

Tudo isto foi vencido há 40 anos. Dia que fiquei na cama.
40 anos depois, não fiquei na cama, como não o tenho ficado nos últimos anos, pois é o dia de correr em Liberdade, festejando de igual forma a liberdade que também foi dada à corrida.  
Das espingardas não saíram balas. O seu cano foi enfeitado por cravos, sinal de novos tempos
E esta Corrida da Liberdade (Pontinha-Restauradores), é uma corrida diferente. É uma festa. Um salutar e fraternal convívio onde a corrida é o pretexto.

Uma vez mais, fizemo-la em grupo. Tive o prazer de acompanhar a Marta, Vítor, João Branco e Jorge Branco. Só faltou a Isa que, apesar de inscrita e presente, não pode correr. Daqui envio-lhe toda a força para recuperar bem rápido, como ao Orlando que se magoou nesta prova. Força!

A chegada com todos de mão dadas (foto enviada pela Ana Pereira)
A chegada em grupo, todos de mãos dadas, é um símbolo nesta prova. Juntos, unidos pelo colectivo sem qualquer tipo de interesses egoístas, é o caminho se quisermos um futuro melhor.


A Avenida da Liberdade cheia de atletas a correrem livremente

19 comentários:

  1. Nem imaginas a alegria que tive em correr com a vossa grande equipe!
    Muito dificilmente este corredor solitário sai do "mato" para ir correr nas grandes avenidas mas está é uma daquelas provas "obrigatórias" em que se tem um prazer enorme em participar e este ano o prazer para mim foi a quadruplicar por 4 ao km :)
    Obrigado pela companhia campeões e força Isa (o teu "abastecimento" no final estava excelente!).
    Grande abraço.

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    1. E a alegria que eu senti de correr contigo?!?

      E tens toda a razão, aquele abastecimento no final era bem bom!

      Um abraço!

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  2. Gostei bastante de ler. De imaginar o teu 25 de Abril de há 40 anos, não muito diferente do meu, apesar de ser um pouco mais nova. E em tudo o que dizes desse período, assino por baixo! Não é por não estarmos "bem" hoje (que não estamos), que vamos desvalorizar a revolução de Abril, como muitas vezes se vê por aí.... Nada se compara a esses tempos. E se eu muito pouco os vivi (tinha 5 anos) não me esqueço do que me contam, familiares e amigos mais velhos.

    Por isso que Abril esteja sempre vivo!


    A vossa prova, a ver pela chegada, foi muito bonita. Gesto solidário. Bonito! Em boa hora o Melro vos apanhou!

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    1. Um grande obrigado ao Melro!

      Beijinhos, Ana :)

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  3. Nunca antes tinha corrido neste dia.
    Corri hoje e com a certeza digo que correrei hoje e sempre!
    :)

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    1. Não duvido. E esta é para fazer sempre em si, unidos :)

      Beijinhos

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  4. O 25 de Abril é uma data que deverá ser lembrada sempre. E esta corrida é um óptimo pretexto para relembrar essa data histórica. Nada melhor do que a corrida para sentirmos o verdadeiro significado de liberdade!
    Infelizmente e com muita pena minha este ano não pude correr mas agradeço todos os dias por o poder fazer regulamente.
    Beijinhos

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    1. Não podias correr mas marcaste a tua presença :)

      Beijinhos e força. Eu acredito! :)

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  5. Muito bom artigo João!
    O 25 de abril não pode nunca ser esquecido.
    Gostei muito de ter feito a prova na companhia de amigos. Foi pena a Isa não ter participado.

    Abraço

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    1. Para o ano tornamos a estar todos juntos e com a Isa e o ego bem levantado por onde estivemos duas semanas antes :)

      Um abraço

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  6. Excelente post João, muito bonito mesmo, não há palavras para descrever o jeito natural que tens para isto :)

    Um abraço!

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    1. Muito obrigado pelas palavras :)

      Um abraço

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  7. Gostei muito deste texto, João!
    Parabéns pela prova e, já agora, por Paris!!!! :)
    Beijinhos

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  8. Grande "Poste", gostei muito. Eu no 25 de Abril tinha ano e meio e estava na Alemanha, com os meus pais, emigrados desde 1970 pq na nossa terra passavam fome e não tinham futuro...qualquer semelhança com os dias que correm é mera coincidência :(
    Ahhh....e eu perdi um tio numa dessas guerras longe de Portugal, o meu pai tb andou pelas colónias 3 anos a combater, e felizmente sobreviveu...caso contrário eu não estaria aqui a comentar...
    Adorei a v/ foto de mãos dadas...
    Abraço "malandrote" ;)

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  9. Pela primeira vez tenho de admitir que a parte que menos me interessou foi o relato da prova... :)
    Eu não era sequer nascida, por isso o meu imaginário flutua com histórias destas. Obrigada João!

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  10. Se não fosse uma data e um motivo alegre ainda ficava com uma lagrima no canto do olho.
    Abraço

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