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| 13ª Maratona concluída! Muito sofrida, o que deu um sabor especial na meta! |
A Maratona não é comparável a qualquer outra corrida e torna-se muito difícil de explicar por palavras o que se passa ali e as emoções que temos para lidar. Apenas passando por elas será possível compreender o muito que mexe connosco e de forma única.
Para um atleta de pelotão, é uma superação sem igual. Daí o assistir-se a tantas e tão indisfarçáveis emoções na linha da meta, com maior enfoque na segunda metade do pelotão, como as fotos assim o demonstram.
Pode ser a 1ª ou a 13ª, cada uma é diferente, cada uma encerra as suas dificuldades e seus receios. Não é por já ter algumas conquistadas que estamos mais calmos ou menos receosos.
E se é sempre a mesma espiral de emoções, mais ampliado é quando problemas afectaram a preparação, como foi o caso vertente desta, pela violenta queda que sofri no início da preparação e que tudo condicionou.
Daí que o medo fosse ainda maior nesta, como dei a entender em artigos anteriores. Conheço-me bem e tinha a consciência que não estava preparado como seria de esperar. Mas também não me esquecia que em Sevilha 2014 (infecção pulmonar 5 semanas antes) e Barcelona 2016 (contractura dos gémeos 1 mês antes) a coisa ainda estava pior e tinha conseguido o "milagre" de cortar a meta. No entanto, nada é repetível e cada dia é um dia.
Esta foi a 14ª vez que parti numa Maratona mas a 13ª que cortei a meta. Na que teria sido a segunda, e não contou, Cascais-Lisboa 2013, foi fisicamente impossível prosseguir, o que me marcou e cuja recordação esteve muito presente nesta Maratona. Tinha muito medo de repetir esse dia. Sabia que só algo completamente impossível de continuar me faria parar, mas havia uma notória preocupação que isso sucedesse.
Uma partida duma Maratona envolve um crescendo de emoções difíceis de controlar e que tanto podem dar para a euforia ou o contrário, o que foi o caso desta. Enquanto a contagem de tempo diminuía, o receio aumentava. Após um abraço de desejo de boa corrida aos amigos Isa e Vitor, já pró-emotivo, a passagem debaixo do pórtico da meta foi a consciência que agora já não havia volta a dar, era ir buscar forças onde não existissem.
| No Queimódromo, uma hora antes da partida, quando ainda estava frio |
| Aqui já equipados e prontos para a luta |
Ainda com a parte emotiva a mil, a Inês, que estava na Family Race, chega-se ao meu lado e pergunta se está tudo bem. Respondo "não!" e tive que me esforçar para não largar cá para fora o que atrofiava a alma. A Inês apenas disse para não dizer nada e após uns segundos calados, começámos a falar, o que foi o melhor antídoto pois teve o condão de acalmar e focar na tarefa que tinha pela frente.
Como no Queimódromo estava um vento frio e cortante, tinha partido com camisola de manga comprida debaixo da de corrida. Logo nesse quilómetro inicial apercebi-me que seria demais pois iria ficar abafado. Tal como há 3 anos, iria parar na curva da Rotunda da Anémona aos 5 e pouco, onde estaria a Mafalda, para tirar essa camisola e seguir em manga curta.
Antes, pouco depois dos 2 km, recolámos à Isa e Vitor que na altura seguiam com o Catita (Family Race) e o Serafim dos CAL.
Ritmo controlado e dentro do planeado, parei por breves segundos junto à Mafalda para tirar e deixar a camisola, tendo ficado novamente para trás dos restantes, com excepção da Inês que esperou por mim e tinha decidido seguir comigo mais um km (até aos 6). Já antes da Rotunda tínhamos recebido o apoio do Carlos Cardoso que também tinha estado pouco após a partida.
Curiosamente, logo após deixar a camisola, caíram uns pingos, meros borrifos que logo passaram. E aqui tem que se abrir um parêntesis para agradecer ao São Pedro. As previsões eram de chuva e choveu antes, apenas recomeçando após o final da Maratona, ficando por toda a restante tarde. Durante, nada, se não considerarmos aqueles pinguitos mal sentidos.
Aos 6, e como combinado, a Inês ficou e segui sozinho. Uma palavra para a Inês pela ajuda que deu. Chegou milimetricamente na altura certa, logo a seguir à partida, e nem imagina o bem que me fez de ir ali descontraído na converseta. Muito obrigado Inês, a tua ajuda foi preciosa!
| A chegar à Mafalda para tirar e deixar-lhe a camisola |
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| E logo a seguir já em manga curta. Não sei o que a Inês estava a dizer mas parecia preocupada... |
No caminho para Matosinhos, altura de ir vendo e gritando por todos os conhecidos que cruzava e chegado ao retorno, vi que a Isa, Vitor e Catita iam pouco mais à frente, acabando por os apanhar cerca dos 10.
Aos 11 (Carlos... tinha que ser...) lá estava novamente o Carlos Cardoso que gritou estar quase um terço feito. Respondi que isso só aos 14 e deu-se um momento caricato pois nessa altura o Catita, ao ter ouvido essa conversa, olha para os nossos dorsais e solta "mas vocês vão para a Maratona!". Eh eh, tinha vindo ali connosco e sem se aperceber que estávamos em distâncias diferentes. Ainda acrescentou "eu bem estava a estranhar o vosso ritmo...".
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| Novamente colado |
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| A ser fotografado pelo Carlos Cardoso |
Um agradecimento ao Carlos e à Dora pelo seu apoio e em especial pelo rico convívio ao jantar na véspera! Pena que não pudéssemos ter prolongado mais tempo mas havia que levantar bem cedo no dia seguinte.
Aos 12, momento importante. No Castelo do Queijo, divisão Family Race / Maratona. Catita corta à esquerda, eu, Isa e Vitor seguimos em frente. E digo momento importante pois a Isa e Vitor tinham cumprido 100 km em Abrantes duas semanas antes e não sabiam como iriam estar neste dia, colocando a hipótese de cortarem para os 15 km da Family Race caso fosse necessário. Claro que desde o início essa hipótese nem se colocava mas foi simbólico aquele momento.
Lá seguimos, naquela longa recta que nesta altura nem se nota mas em sentido contrário (aos 40) não tem fim. Ritmo sempre certinho como convém em distâncias longas.
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| Novamente na Anémona |
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| No Castelo do Queijo, na separação Family Race / Maratona |
Cruzámos com os primeiros (até parece fácil, não é?!?), pela Alfândega onde na véspera levantámos os dorsais, numa feira sem igual em Portugal, e comido uma Pasta Party única ou não estivéssemos a falar de comida no Norte de Portugal.
Na Ribeira, cuidado redobrado na passagem por aquela rua apertada pois o piso estava húmido, é a descer e em calçada, e a passagem pela Ponte Luiz I, motivo da muito bela medalha desta prova.
Logo após a saída e descida, encontrámos o Mike que ainda correu uns passinhos ao nosso lado. Muito obrigado Mike! Sabes bem como estes momentos são importantes para quem está em esforço.
Grita que vamos frescos mas isso foi ilusão. Foi exactamente na Ponte que comecei a sentir algum cansaço. Entre esse momento e o pórtico da Meia, fiquei uns passos atrás da Isa e Vitor. Depois foi ver estes heróis (100 km 15 dias antes!), irem-se afastando do meu horizonte.
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| Cerca dos 19, todos bem dispostos |
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| Aqui ainda estava tudo bem |
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| Em plena Ribeira |
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| À saída da Ponte, fotografados pelo Mike |
Queria accionar o modo de sobrevivência aos 30 mas teve que ser na curva do retorno na Afurada (25 km).
Estava a começar a Maratona! Para trás tinha ficado tudo. Uma preparação problemática, um mês de Agosto de enorme sacrifício para conseguir recuperar a muita velocidade perdida, tendo batido o record de km num mês, no que foi a única forma de obrigar o corpo a reagir. E para trás tinham ficado todos os receios e dúvidas. Nesta altura um só pensamento: Foco e concentração para conseguir vencer o muito que distava da meta, com o pouco de energia restante.
Fui seguindo a passos com o Serafim entre este momento e os 36. Alturas havia que seguia um pouco à frente e ele apanhava-me e o inverso. Aos 36 teve mais energia e lá seguiu. Muito obrigado Serafim pela ajuda e pela paciência em me teres aturado nesta fase!
Já depois de regressar ao lado do Porto, fui cruzando com o Orlando, em nítidas dificuldades mas sempre a lutar, e com a Isa e Vitor, sempre a resistirem estoicamente. São umas máquinas!!!
Passagem pelo túnel. Tem sempre televisões espalhadas a transmitir uma música incentivadora. Este ano, Chariots of Fire do Vangelis (já um ano a tinha apanhado). Foi bom ver as imagens daqueles atletas a correrem livremente, transmitindo prazer de corrida. O mesmo que, apesar do contra-senso do sofrimento, sentimos por estar ali.
Nova passagem pela Alfândega e lá estava a Inês e Rui. Claro que nesta altura a Inês viu um João diferente do que tinha deixado aos 6. Diferente no nível de cansaço mas igual na vontade de concluir.
A Inês tinha um cartaz onde dizia para bater ali para ganhar energia extra. Bati duas vezes e mais precisaria.
Continuei o caminho, cada vez mais desgastado. Nesta altura a Maratona já vai longa, o pelotão menor, hora de almoço, o que torna as ruas com raros espectadores.
Aos 36 vi o Serafim afastar-se, com a consciência que desta vez já não o iria conseguir apanhar novamente.
Há muito que a quase certeza que tinha antes da prova se tinha tornado em garantia. Esta iria ser a Maratona com o tempo mais alto de todas. Já há tempos que sabia que dificilmente isso não iria suceder e tinha-o deixado num artigo. Mas isso nunca foi problema para mim. O importante era sentir que tinha dado o máximo que tinha para o momento. E isso estava a suceder e de que forma.
Em especial a partir dos 36, sofri muito. Difícil descrever quanto. No entanto, nunca, nem por uma fracção de segundo, passou pela cabeça ficar pelo caminho. Desistir nunca foi, nem podia ser, opção! Apenas o medo de algo suceder que impossibilitasse por completo a continuação, como o foi em 2013. E esse fantasma de 2013 esteve muito presente nesta prova. O momento mais assustador deu-se aos 37 quando parecia que não conseguiria dar um passo mais. Foi uma (terrível) sensação que durou uns muito breves segundos e, tal como apareceu, desapareceu.
Se as 5.25.09 da Cascais-Lisboa 2015 eram uma certeza que iriam deixar de ser o tempo mais alto em Maratona, ainda tentava lutar por ao menos não passar das 5.30 (5.29.59 estava bem). Porém, aos 39 tive que abdicar dessa meta em nome de chegar à meta.
Nesta altura ia passando (poucos) e passado (mais) por outros atletas, trocando incentivos. Foi então que cheguei à terrível recta sem fim. E tive uma ajuda completamente inesperada ao passar no reabastecimento dos 40.
Nesta prova não tomei geis por sentir um muito ligeiro enjoo com o esforço e recear que caísse mal. Apenas sempre água a que se juntou meia banana aos 20 e quarto de gomo de laranja aos 25.
Passo por este reabastecimento dos 40, recebo uma água, vejo bananas, laranjas e isotónicos e nada me apetece. Ao chegar ao fim do posto, vejo uma caixa com algo que nunca tinha visto até agora em reabastecimentos, uvas pretas. Pego num molho de 5 e... difícil de explicar como souberam. Raras vezes a expressão "soube-me pela vida" teve tanto efeito. Apenas como a da banana aos 30 em Barcelona.
E finalmente, o Castelo do Queijo! Não só sinal que a placa dos 41 estava ali como aquela recta sem fim afinal tinha um fim!
Nesta altura passou o Filipe Leitão com quem troquei umas palavras. Não tive foi pedalada para o acompanhar no km final.
Os 3 km de distância entre o Castelo do Queijo e a Anémona foram suavizados por um grupo de raparigas que estavam ali em entusiástico apoio. O quê?!? Estão a corrigir-me a dizer que a distância entre as duas rotundas será duns 800 metros e não 3 km?!? O relógio também registou 800 metros mas olhem que as pernas garantiram-me que foram 3 km...
Curva da Anémona e a ligeira subida para o Queimódromo. Ligeira em condições normais, inclinação de 50% nesta altura. E digo 50 e não 100% pois já cheirava a meta!
Curva para a direita, curva para a esquerda e em frente a meta!
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| Já cheira a meta! Não se iludam pelo sorriso. A coisa ia a custar (será que sou bom actor?!?) |
Ao ver a meta, acabou o foco, a concentração. Perdi a cabeça! Soltei cá para fora tudo. Toda a alegria, toda a emoção. Soltei todo o sofrimento que passei nos últimos quilómetros, tudo o que passei nos meses pós queda, em especial Agosto. Tudo veio à cabeça e a tudo respondi com a explosão do momento. Sim, nunca fiz um tempo tão alto (5.31.18) mas cortei a meta com a consciência que não só tinha dado tudo o que tinha como mais além. E a recompensa foi uma chegada ma-ra-vi-lho-sa!!!
Dum lado a Mafalda, Isa e Vitor aos berros. A ladearem-me as cheer girls da organização a acompanharem-me nesses metros. Corto a meta. Meto as mãos na cara como a não acreditar que estava feita. Recebo um abraço do Tiago Teixeira da RunPorto com quem troco umas emocionadas palavras.
Como colocar por palavras tudo o que senti naquele momento? É por isto que corro maratonas. Posso sofrer muito (e nesta sublinhe-se forte o muito) mas o cortar a meta, símbolo de superação, é inexplicável.
Como não há palavras que descrevam bem, aqui está o video da chegada, feito pela Isa:
E agora a sequência de fotografias, onde se pode observar o turbilhão de emoções:
Apesar de esgotado, das primeiras coisas que disse à Mafalda, Isa e Vitor foi "175". Respondendo ao seu ar interrogativo, acrescentei "os dias que faltam para Madrid!".
Como não há palavras que descrevam bem, aqui está o video da chegada, feito pela Isa:
E agora a sequência de fotografias, onde se pode observar o turbilhão de emoções:
Apesar de esgotado, das primeiras coisas que disse à Mafalda, Isa e Vitor foi "175". Respondendo ao seu ar interrogativo, acrescentei "os dias que faltam para Madrid!".
É isto, a Maratona é um bichinho que nos atinge forte! Haja saúde para as ir fazendo!
Amigo Nuno, como te disse pouco depois de cortar a meta, levei-te sempre comigo! E sem o saberes, muito me ajudaste! Força amigo!
E obrigado a todos por tudo!
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| O abraço a quem tanto tem que me aturar nestas loucuras |
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| Tudo com a medalhinha ao peito. E um reconhecimento muito especial aos heróis Isa e Vitor! |
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| Já é uma tradição, fazer com os dedos o número de Maratonas (quando chegar a 16 não sei como fazer...) |
E obrigado a todos por tudo!





























