segunda-feira, 16 de março de 2015

Manuel Sequeira, entrevista a um senhor do Atletismo!


Manuel Sequeira é um verdadeiro senhor do Atletismo. Atleta há 35 anos, estreou-se no Grande Prémio do Bocage na sua Setúbal natal a 15 de Setembro de 1980, a 4 dias de completar 30 anos, é também jornalista da modalidade (na Revista Atletismo desde 2004), colaborou nalgumas organizações de provas e já foi dirigente de clube.

Tem o privilégio de conhecer por dentro e fora este desporto que nos apaixona, desde os tempos pioneiros à época actual, sendo assim pessoa ideal para ser ouvida.

E é exactamente com o Manuel Sequeira, que tenho a honra e prazer de ser amigo, que publico pela primeira vez uma entrevista (e é uma grande responsabilidade iniciar-me logo com um jornalista!).



E esta entrevista, que se justificava por tudo o que o Sequeira já fez e tem para contar de experiência feita ao longo destes anos, vem a propósito de significativas efemérides.

Uma delas, é a sua presença na Meia-Maratona de Lisboa no próximo domingo, edição comemorativa de 25 edições, e das quais ele é totalista. Não sei se haverá mais totalistas mas o Sequeira esteve presente em todas e nalgumas com esforço, como em 2013 onde correu com uma forte gripe, 3 anos após ter feito a prova com uma costela partida! Mas o desejo de continuar totalista levou-o a esse esforço.

Simultaneamente, é a sua Meia-Maratona número 150, mas ainda mais significativo, é o facto do Sequeira ter disputado no Grande Prémio do Atlântico, realizado a 22 do passado mês de Fevereiro, a sua corrida número 1.000!



Tudo razões mais do que suficientes para o ouvirmos e dar-lhe o mais que merecido destaque, a ele que tenta fugir dos holofotes.

Antes da entrevista, uns pequenos dados que demonstram a grandeza do seu percurso.

Nascido em Setúbal em 1950, foi também nesta cidade que começou a sua longa e brilhante carreira que o levou aos actuais números, destacando-se as suas 25 Maratonas e 5 Ultra-Maratonas (clicar na imagem em baixo para poderem ver essa relação) 

além de 149 Meia-Maratonas, que passarão a 150 neste domingo onde realizará a 25ª Meia-Maratona de Lisboa em 25 edições (clicar na imagem em baixo para os números de todas as 24 edições)

Como a primeira é sempre especial, eis aqui a sua descrição da corrida de estreia. "A minha primeira corrida foi em 15 de Setembro de 1980. Tinha começado a correr uns meses antes com um grupo de amigos do antigo café Benjamim, em Setúbal. Só íamos correr aos sábados de manhã e, no final, tínhamos uma pequena sessão de ginástica. Desse grupo, só resto eu. Entretanto, fui de férias e claro que não treinei nesse período. Dois ou três dias depois de regressar das férias, um amigo convidou-me para irmos correr o Grande Prémio do Bocage, prova nocturna com 10 km. Não mostrei grande entusiasmo em me estrear assim, sem treinar há mais de um mês. Lá fui convencido e fiz a prova. Ela começou dentro do Estádio do Bonfim que tinha a bancada central cheia de espectadores pois havia outras actividades comemorativas do aniversário do Bocage. Corri então pelos Amarelos, uma popular colectividade de Setúbal. Cortei a meta em 50 minutos e fiquei todo contente com a estreia. O pior foi nos dias seguintes, muitos companheiros da Setenave onde trabalhava, reconheceram-me da bancada e fartaram-se de me gozar (claro que na brincadeira)".


Diploma da Maratona de Sevilha 2004, onde registou 3.38.35
Jornalista da Revista Atletismo em part-time desde 2004, foi também co-responsável na organização de provas como a Volta ao Minho no Parque Natural da Arrábida, a Maratona da Arrábida em 3 etapas, o Grande Prémio da Arrábida nas primeiras edições, uma das edições do Grande Prémio dos Santos Populares, organizado pelos Ídolos da Praça, em Setúbal.
Foi um dos sócios fundadores e dirigente em três Direcções das Lebres do Sado e foi durante oito anos o responsável da Secção de Pedestrianismo das Lebres do Sado, organizando (muitas vezes sozinho) passeios pedestres em áreas do Parque Natural da Arrábida, chegando a ter mais de cem participantes, o que era raro nesses tempos. 
Num desses passeios, conheceu a Ana Júlia, sua actual companheira.

Os seus records são:
10.000 - 38.23 (Corrida da Seixalíada 1986)
15.000 - 59.30 (1º Maio 1984)
21.097 - 1.24.14 (Meia-Maratona de Lisboa 1994)
42.195 - 3.11.07 (Londres 1993)

Sobre a Maratona que mais gostou, destaca: "Das 25 que competi, as mais significativas foram a de Londres e a do Sahará. A primeira, pelo significado que teve para mim. Nesse tempo, eram raras as transmissões televisivas de atletismo. Para mim, ir correr a maratona de Londres era como ser um atleta profissional e ir aos Jogos Olímpicos.
A maratona do Sahará em 2002, pelo facto de correr no deserto e pelo convívio com o povo saharui, um povo espectacular que aguarda há dezenas de anos pela independência do seu território, ocupado militarmente pelos marroquinos e perante a indiferença das Nações Unidas e de governos como o nosso"


Na maratona do Sahará, em cima à porta da tenda da família que o acolheu 


Relativamente à maior distância percorrida, Sequeira refere: "51 km da Nocturna da Malcata, que ligou Sabugal a Penamacor, no dia 12 de Julho de 2003. Demorei 5h58m55s e fiquei em 35º lugar entre 46 classificados. Em 15 de Julho de 2000, também fiz esta prova mas no sentido contrário, Penamacor/Sabugal. Tinha então a distância anunciada de 50 km. Demorei 5h44m56s e fui o último, conjuntamente com o Esmeraldo. Acabámos apenas 28. Tínhamos deixado para trás cerca de uma dezena de participantes mas que foram desistindo. Face à dificuldade da prova, nunca pensei que me soubesse tão bem chegar um dia em último! 
Eram ao tempo, as distâncias maiores que havia no nosso país. Os tempos eram outros e se a maratona era um “bicho de 7 cabeças” para a maior parte dos atletas populares, a situação agravava-se quando a distância era maior. Sempre ambicionei fazer uma prova de 100 km mas elas não existiam no nosso país e para esta distância, não era muito hábito deslocarmo-nos a outros países, ainda que mesmo ao lado, na nossa vizinha Espanha. Passou a oportunidade…
No entanto, a prova de longa distância que mais valorizo foi a Volta ao Minho, embora com características diferentes. Foi disputada entre 1 e 9 de Agosto de 1987, foram 347 km, com dias a corrermos mais de 50 km, sempre em duas etapas diárias à excepção de um dia em que tivemos apenas uma. Duro, duro, duro! Tínhamos de correr a uma média de 5m/km. Na altura, era fácil correr a essa velocidade. Mas quando chegávamos ao terceiro ou quarto dia, já não era nada fácil. Muitos desistiam, mesmo corredores muito melhores do que eu. As lesões eram as grandes inimigas da Volta ao Minho. Acabei essa Volta cheio de ligaduras, nos dias seguintes, mal me podia mexer!"


Volta ao Minho 1987, reconhecendo-se ao seu lado Analice Silva

Passemos então à entrevista propriamente dita:   

JL - No próximo domingo, uma corrida especial. Totalista nas 25 edições da Ponte, a Meia-Maratona 150 e há 3 semanas a corrida 1.000! Que emoções e significado te oferecem estes números? 

MS - Sempre fui um corredor medíocre, o meu lugar nas corridas foi frequentemente na segunda metade do pelotão. Os meus tempos foram sempre fracotes, sem qualquer expressão no pelotão. Mas raramente me preocupei com os tempos, com os meus adversários. Com estes, terei sido competitivo meia dúzia de vezes. Eu queria e quero é correr. E de há muitos anos para cá, que passou a “febre” dos recordes pessoais. Passear, fazer turismo, fazer novas amizades, convívio, correr, são sinónimos de atletismo popular.
O meu objectivo é correr ainda muitos anos. Costumo dizer que a minha referência é o Joaquim Pereira, atleta das Lebres do Sado que ainda corre aos 75 anos. Claro que corro cada vez menos mas isso não é preocupante. O importante é correr sem lesões e isso tem acontecido nos últimos anos.
Correr na Ponte 25 de Abril é uma satisfação enorme. Correr lá tem um significado especial para mim que foi aumentando com o passar dos anos. Para além de ser totalista, não me posso esquecer que foi lá que estabeleci o meu recorde pessoal na distância.
Eu não corri 25 vezes na Ponte 25 de Abril mas sim 27! Fui um dos que participou nas duas primeiras edições em 20 Junho 1982 e 29 Março de 1983. A prova teve então as distâncias anunciadas de 10 e 12,2 km e terminava nas imediações do largo do Rato, junto ao Ginásio Clube Português. Participei ainda na terceira edição, em 20 Maio de 1984, com 11 km. Mas a passagem pela ponte foi proibida pelo Governo escassos três dias antes da prova. Ela acabou por se realizar mas com a partida a ser dada em Algés. Ainda tenho o diploma dessa prova. 
Ser totalista na Ponte, é um desafio que me é feito anualmente e com estórias curiosas. Em 1997, eu e alguns companheiros da equipa, partimos sem dorsal porque tinha havido um desencontro na partida com quem tinha os dorsais. Partimos na frente e esperámos no Largo de Alcântara durante dez minutos e à chuva, esperando pela passagem do companheiro dos dorsais. Felizmente que o vimos e lá continuámos a prova. Também já lá fui com uma costela partida, em 2010 e sem conhecimento do ortopedista que me consultou. E em 2013, com uma gripe, daquelas de estar de cama. Fui apenas por ser totalista. Sem forças para fazer a prova sempre a correr, alternei a marcha com a corrida mas consegui acabar.
Quanto ao pormenor de ser a minha 150ª meia maratona, é uma coincidência engraçada que ia quase sendo completada com a minha milésima corrida que afinal foi na Corrida do Atlântico no passado dia 22. 
Já podia ter muitas mais meias maratonas pois em 9 Dezembro de 2001, fiz a minha centésima. Foi entre Évora e Arraiolos. Logo, desde 2001 e em 14 anos corri apenas 50 meias maratonas. Actualmente, tenho duas que não posso falhar, a da Ponte 25 Abril e a da Nazaré (33 edições). Poderei correr eventualmente uma ou outra, principalmente se forem novidade para mim. Correr quase duas horas seguidas na estrada, já não é muito sedutor para mim.
Na consulta que fiz aos meus dados para poder responder a algumas das perguntas do João, fui dar com alguns dados que hoje não podia repetir por motivos óbvios (falta de “canetas”). Eis alguns exemplos:
- Em 1989, corri no dia 22 Abril à noite a meia maratona Queluz/Sintra em 1h38m30s. Na manhã do dia seguinte, corri a meia maratona da Troia, em 1h39m15s.
- Em 22 Abril de 1995, corri a meia maratona da Troia em 1h40m50s. Na manhã seguinte, corri a de Setúbal em 1h36m18s.
- Em 1997, corri quatro meias maratonas em quatro fins-de-semana seguidos! Nazaré (2/11), Seixal (9/11), Porto Covo (16/11) e Lisboa (23/11). Enfim, outros tempos!
Ainda sobre a meia maratona da Ponte 25 Abril, gostaria de saber quantos totalistas existem. Seria bonito saber-se isso tal como se sabe na meia da Nazaré. Ao chegar-se agora às Bodas de Prata, a Organização da prova devia ter essa tarefa em mente.


No Campeonato da Europa de Veteranos
JL - O que te levou começar a correr?

MS - Eu sempre gostei de correr. Na tropa, quando havia os crosses com a arma às costas, eu gostava de correr, ao contrário da maioria dos meus camaradas de pelotão. Mas naquele tempo, quem corria em Setúbal sem ser em pista? Mesmo quando comecei a correr em 1980, os comentários não eram muito agradáveis. Ouvia frequentemente o “vai mas é trabalhar!”, não havia qualquer tipo de sensibilidade para o atletismo popular. Felizmente que os êxitos do Carlos Lopes e da Rosa Mota, transmitidos pela televisão, contribuíram para se abrirem algumas mentes.

JL - E nessa altura, alguma vez imaginaste poder chegar a estes números impressionantes?

MS - Quando comecei a correr, é evidente que não tinha ideia alguma de quantos anos iria correr. Aliás, foi muito complicado correr nos primeiros anos devido às lesões. Fiz poucas provas. Não havia a assistência médica que existe agora, eram raros os centros de fisioterapia onde pudéssemos recuperar, os médicos formados em medicina desportiva eram em número muito escasso. E a nível informativo, havia apenas a revista Spiridon, o resto era um enorme vazio. 
Há que dizer ainda que o chegar agora à milésima corrida, só foi possível devido ao apoio dos clubes que representei (AA Lebres do Sado e muito particularmente do GD dos Trabalhadores da Repsol) e de muitos amigos que me deram e dão-me boleias para locais mais longínquos. Sem eles, nunca teria chegado a estes números. Eles também fazem parte das mil e três corridas, o meu grande obrigado a todos eles.


No Cross da Laminha

JL - Quais as maiores diferenças que notas entre esses tempos pioneiros e a actualidade?

MS - As diferenças são naturalmente enormes. Começam pela medição das distâncias dos percursos, onde não havia o rigor de agora. O trânsito estava por vezes aberto no sentido da corrida, com todos os perigos inerentes. Também havia muitas provas onde falhavam os abastecimentos, facto raro nos dias de hoje.
Antigamente, os dorsais eram em cartolina que com a chuva, se desfaziam, apagando os números muitas vezes escritos à mão. Não havia internet para fazer as inscrições nem NIB para fazer os pagamentos por transferência bancária. Era tudo feito à mão, inscrições enviadas pelo correio com o cheque lá dentro.
Não havia chips, o que provocava enormes filas após a meta. Muitas vezes, 200 ou 300 metros antes de cortar a meta, já estávamos parados em fila pirilau. Às vezes, estávamos tanto tempo na fila para entregar o dorsal e receber a t-shirt como tínhamos demorado na corrida, principalmente se esta tinha 10 km ou menos. Naqueles tempos, era impossível haver provas com tantos milhares de participantes se não houvessem chips.
Os resultados só eram publicados muito tarde, quem tinha prémio ou suspeitava de que pudesse ter, tinha de ficar frequentemente até às 12 ou 13 horas à espera que saíssem os resultados. Havia o hábito dos diplomas para quem completasse a prova, ainda tenho dezenas deles comigo que agora são relíquias.

JL - Olhando para a tua carreira, terias feito alguma coisa de forma diferente?

MS - Pensei muito nesta pergunta e basicamente, o que teria feito de diferente era escutar o meu corpo aquando das lesões. Quantas vezes não recomecei a correr sem estar ainda em condições, agravando a lesão quase curada? Isso já não faria hoje. Mas correr por exemplo, quatro meias maratonas em fins-de-semana seguidos, uma meia maratona logo a seguir a uma maratona, claro que o voltaria a fazer. Por razões muito simples: era mais novo, treinava mais e estava preparado para tal.


Numa das 24 presenças na Meia-Maratona de Lisboa
JL - Se te fosse dada a possibilidade de organizares uma prova, completamente à tua escolha, e onde meios não faltassem, que prova criarias?

MS - Voltaria a organizar a Maratona da Arrábida, repetindo o que fizemos numa Direcção das Lebres do Sado sob a presidência de Alberto Carolino. Organizámos a prova durante dois ou três anos mas como o número de participantes não ultrapassava os 60/70, a Direcção decidiu acabar com a prova, substituindo-a pelo Grande Prémio da Arrábida. Não havia então a apetência pela montanha como há hoje.
A Maratona da Arrábida era corrida num fim-de-semana, em três etapas. Duas no sábado e uma no domingo. Havia muita competitividade e muito convívio pois as inscrições na prova incluíam os almoços. Os primeiros quilómetros tinham que ser corridos em grupo, tudo isso fomentava o convívio e a amizade entre a maioria dos participantes.
(Nota: Para saber o histórico desta prova, clicar aqui)


Na Maratona de Médoc 2014, equipado de cozinheiro português e com a sua companheira Ana Júlia


JL - Um ponto sempre aguardado nas entrevistas que realizas para a rubrica Atleta de Pelotão, é quando pedes ao entrevistado que relate episódios curiosos que lhe sucederam. Pois agora é a altura de seres tu a relatar-nos os melhores episódios que já passaste, seja como atleta, jornalista ou na organização de provas.

MS - Claro que também não me faltam estórias. Vou apenas referir algumas para não enfadar demasiado os leitores. As duas primeiras que selecionei foram como atleta.

No cemitério do Entroncamento
Passou-se em 22 de Junho de 2008 e diz respeito ao Grande Prémio do Museu do Ferroviário. Saí de Setúbal com o Jaime Mota e mais as nossas mulheres, elas para a caminhada e nós para a prova de 10 km. Mas perdemo-nos no caminho. Quando nos apercebemos disso, vimos que já não íamos chegar a horas da partida. Telefonei para o Alberto Carolino e pedi-lhe para deixar os nossos dorsais em alguém da Organização que pudesse estar na partida à nossa espera. Teremos chegado com uns dez minutos de atraso, deram-nos os dorsais e lá nos disseram por onde devíamos ir. Disse então ao Jaime que ele não se preocupasse que apanharíamos os últimos e depois, seria fácil integrarmo-nos na prova. Só que o percurso não estava devidamente sinalizado nos cruzamentos. Nos primeiros, ainda fomos perguntando aos passeantes se tinham visto a passagem dos corredores. Lá nos fomos orientando até que a partir de determinado momento, ninguém tinha visto alguém a correr. Estávamos perdidos, tentando descobrir alguma pista que nos permitisse reentrar na prova. Quando demos por nós, estávamos à porta do cemitério! Claro que não entrámos e voltámos para trás. Já estávamos com cerca de 40 minutos de corrida. Como então corria para menos de 50 minutos aos 10 km, disse ao Jaime para voltarmos para trás porque pelo menos, íamos fazer o tempo habitual correspondente aos 10 km. Quando estávamos quase a cortar a meta, reparámos que íamos fazê-lo pelo lado contrário! Ainda tivemos de dar uma grande volta para cortar devidamente a meta. Fizemo-lo em 59m17s e não fomos os últimos. Alguém da Organização disse-nos quando nos viu chegar: “já cá estão!”. Claro que nunca lhe dissemos por onde andámos.

Vinho na maratona de Médoc
Tinha visto há uns 10/15 anos uma reportagem no Eurosport sobre a maratona de Médoc. Escrevi para a Organização procurando participar na edição seguinte. Responderam-me que as inscrições já estavam encerradas. Não desisti da ideia em ir lá um dia. Consegui-o em 2008, foi um grande prazer participar naquela festa. Quanto aos abastecimentos de vinho, sabia que havia dezenas deles, acompanhados de presunto, queijos, ostras, entrecosto, gelados, até morcela! Mas como tinha medo que o vinho me fizesse mal, decidi apenas bebê-lo aos 39 km. Se ele me caísse mal no organismo, só faltariam 3 km e haveria de chegar à meta, nem que fosse a caminhar. Bebi o vinho, a verdade é que se eu tivesse fechado os olhos e me dissessem que ia beber água, teria acreditado. Como diz o ditado, caiu que nem ginjas. Logo aí pensei que se um dia voltasse a Médoc, teria de beber mais vezes. Foi o que fiz em Setembro último. Em 22 abastecimentos, bebi 12 vezes e sem qualquer efeito negativo no organismo. Fiquei ainda mais fã daquela maratona. Encerrei a conta das maratonas às 25 mas acho que Médoc seria a única que me poderia um dia fazer voltar a correr a distância. 

Correr com sapatos emprestados
Na organização de provas, tenho uma deliciosa passada numa das maratonas de Lisboa organizada pela Xistarca e com a meta instalada no Estádio do Inatel.
Estava devidamente identificado como fazendo parte da Organização e faltavam uns escassos minutos para a partida quando fui abordado por um holandês. Estava muito aflito porque tinha perdido a mala no aeroporto e não tinha sapatos nem calções para correr. Perguntou-me se eu o desenrascava. Calções não tinha, quanto a sapatos, ofereci-lhe os meus que por acaso eram uns sapatos de treino. Ele experimentou-os e como lhe serviam, deu-me os dele (que até eram velhos). Ficámos de nos encontrar na meta. Entretanto, ainda tentei encontrar alguém com uns calções a mais mas não o consegui. Já não o vi antes da partida e fiquei curioso em saber como é que ele tinha feito. Encontrámo-nos na meta e foi uma grande festa, ele estava deveras feliz. Perguntei-lhe se tinha arranjado os calções, disse-me que não e mostrou-me os boxers. À boa maneira portuguesa, desenrascou-se! Fiquei contente por o ter ajudado, gostava que me fizessem o mesmo em situação semelhante.

Entrevistas “atrevidas”
Como jornalista da revista, costumo fazer as entrevistinhas após eu próprio cortar a meta. Tenho arranjado assim boas amizades. Mas o engraçado é ter tido alguns corredores que eu não conhecia, que vieram ter comigo e me perguntaram: “você não me quer entrevistar?” Achei piada ao “atrevimento” e claro que fiz essas pequenas entrevistas com prazer. Também já meti uma vez a “pata na poça” ao trocar as fotos dos entrevistados.


A cortar a meta da sua 25ª Maratona, com a bandeira nacional (o tempo no placard é o de prova e não o da leva onde Sequeira partiu)


JL - E para finalizar, que mensagem gostarias de transmitir aos leitores deste blogue?

MS - Não sou grande frequentador de blogues nem do facebook. Os blogues de atletismo são para mim, mais um meio de consulta do que outra coisa. Mas por aquilo que conheço, o blogue do João Lima é para mim, como uma bíblia dos resultados para além de ser uma agenda da corrida. É de longe, o mais completo e de consulta obrigatória para quem quer saber os resultados de uma determinada prova. Deixo a sugestão às Organizações das provas em enviarem sempre os resultados para o blogue do João. Muitas vezes, vou aos blogues dos clubes que organizam as corridas e não encontro lá os resultados! 
Para além dos resultados, o blogue do João é muitas vezes um local sério de debate sobre a modalidade.
E corram sempre com prazer! Lembrem-se de que são amadores, que não fazem da corrida um modo de vida. A corrida é um hobby para ser vivida com paixão.

Resta-me agradecer ao Sequeira a disponibilidade para esta entrevista (que espero ter ficado a contento) e pedir para clicarem aqui para lerem um elogio que o atleta Alberto Carolino dedicou ao entrevistado, no nº6 do Magazine de Informação das Lebres do Sado relativo a Novembro / Dezembro de 2001, e que refere as influências que o Sequeira fazia na tentativa de captar mais maratonistas. Uma história deliciosa que estou convencido será uma surpresa para o próprio por eu a ter ido desencantar! 
Não a percam, e notem bem a última frase. Eu concordo! :) 



sábado, 14 de março de 2015

5º (e último) de 30 e 3º em 4 semanas. Ufa! :)

Mais um treino rumo a Paris para os dois Joões 
O desafio de hoje era conseguir novamente 30 km. E o desafio era grande por várias razões. Era o 5º nesta preparação para Paris, quando fiz apenas 1 para a de estreia e não pude fazer nenhum para Sevilha e Porto. O plano inicial consistia em 2 treinos de 30 mas que cedo passaram para 4 ao constatar que estava bem. Afinal, ainda havia outro, o de hoje. Mas o desafio era maior ao ser o 3º em 4 semanas. 

Mas o principal desafio era ser ao sábado de manhã. Normalmente ao sábado sinto-me cansado pela semana de trabalho e aproveito o dia para recuperar forças. Mas o João Cravo apenas podia hoje e, claro, entre ele ir sozinho hoje e eu amanhã sozinho, havia toda a vantagem em irmos juntos a ajudarmo-nos mutuamente. E funcionou como um desafio adicional. Se conseguisse também os 30 ao sábado, dava mais "boost" mental.

O percurso foi desta vez ao contrário de há 2 semanas, ou seja, Cais do Sodré-Cascais. Para perfazer os 30, começámos na Praça do Comércio. Mas antes, foi a "odisseia do xixi". Como o treino era longo, convinha ir de bexiga vazia. Tentámos a casa de banho da estação do Cais do Sodré mas vimos que é paga. Tentámos os barcos, tanto no Cais do Sodré como na Praça do Comércio e ambas fechadas, sendo que esta última tinha a indicação que se encontrava fechada por ter sido vandalizada! 
Cafés àquela hora, estavam quase todos fechados. O que estava aberto, encontrava-se às moscas, sendo chato entrar sem consumir nada. Se estivesse cheio, passávamos despercebidos.
Bom... a vantagem de ser homem é que se resolve atrás duma árvore quando ninguém está a passar. E acabou  assim esta odisseia.

Os primeiros quilómetros não foram fáceis pois estava um pouco preso mas a partir dos 3 fiquei bem. Modo automático e siga em direcção a Cascais.

Sempre com o sol por trás (não pus protector e o pescoço tem uma ligeira queimadura...) nos últimos 10 o vento começou a sentir-se contra. Mas o desgaste vinha de tanto passeio que massacra mais as pernas e a partir dos 24 veio a certeza que o final ia ser duro.

E foi, em especial os últimos 2 quilómetros onde só o desejo de completar os 30 levou a nunca parar. Tenho consciência que fui atrasando o João que estava naturalmente cansado mas com mais estâmina que eu.

E chegou-se ao fim! Consegui o 5º de 30 e nunca andando em qualquer deles um só metro que fosse. 
Curiosamente, as marcas foram todas na casa das 3.20. Por ordem de marcas: 3.20 / 3.24 / 3.27 / 3.28 / 3.28. Regular!

O João Cravo provou, uma vez mais, que está muito bem e a caminho duma estreia de sonho.

Acabando em Cascais, o que merecia eu? Ora, para quem não sabe, não sou pessoa de me meter em grandes comidas, não tenho vícios nesse aspecto, apenas um "pecado". Adoro gelados! Mas até nisso se vê a dedicação que tenho reservado a esta Maratona, pois se comia um praticamente todos os dias (era o momento de relax ao chegar a casa vindo do trabalho), agora tem sido à volta de apenas um por mês. Mas estava em Cascais, muito cansado mas feliz por ter conseguido mais este treino bem sucedido e decidi que merecia uma prenda.
Fui ao Santini (os melhores gelados que conheço) e pedi um cone com morango e ananás de São Miguel.
Só digo uma coisa. Se adoro qualquer gelado do Santini, o de hoje ainda me soube melhor! Que rica prenda!

Agora, para a semana é a Meia de Lisboa, na semana seguinte 20 calmos e na outra, uma semana antes, vou descontraidamente aos 10 km da linda corrida de Constância.

Faltam 29 dias (amanhã 4 semanas). Ai ca emoção!!!!!

terça-feira, 10 de março de 2015

Um milhão de visitas em ambas as plataformas!


É com prazer que informo que no conjunto do site joaolima.net e deste blogue, a soma das visitas em ambas as plataformas chegou hoje ao milhão! (às 13.04 de hoje, site - 626.742, blogue - 373.277, total - 1.000.019)

Tal como referi há dias, aquando do 5º aniversário do blogue, mais que os números, o que conta realmente, e não tem valor calculável, são as pessoas fantásticas que tal me permitiu conhecer.

Um milhão de obrigados a todos e, como curiosidade, fica a lista dos países que já entraram nalguma das duas plataformas. Nada menos nada mais que 140!

Países (140): Afeganistão, África do Sul, Albânia, Alemanha, Andorra, Angola, Antilhas Holandesas, Arábia Saudita, Argélia, Argentina, Armênia, Austrália, Áustria, Azerbeijão, Bangladesh, Bélgica, Benin, Bielorrússia, Bolívia, Bósnia-Herzegovina, Botswana, Brasil, Bulgária, Burundi, Cabo Verde, Camarões, Camboja, Canadá, Cazaquistão, Checoslováquia, Chile, China, Chipre, Colômbia, Congo, Coreia do Sul, Costa do Marfim, Costa Rica, Croácia, Cuba, Dinamarca, Egipto, El Salvador, Emirados Árabes Unidos, Equador, Eslováquia, Eslovénia, Espanha, Estados Unidos da América, Estónia, Etiópia, Filipinas, Finlândia, França, Gana, Geórgia, Grã-Bretanha, Grécia, Guatemala, Holanda, Honduras, Hong Kong, Hungria, Ilhas Caimão, Ilhas Virgens Britânicas, Índia, Indonésia, Irão, Iraque, Irlanda, Islândia, Israel, Itália, Jamaica, Japão, Jersey, Kuweit, Letónia, Líbano, Liechtenstein, Lituânia, Luxemburgo, Macau, Malásia, Malta, Marrocos, Maurício, México, Mianmar, Moçambique, Moldávia, Mónaco, Mongólia, Montenegro, Namíbia, Nepal, Nicarágua, Nigéria, Noruega, Nova Zelândia, Panamá, Paquistão, Paraguai, Perú, Polinésia Francesa, Polónia, Porto Rico, Portugal, Qatar, Quénia, República Centro-Africana, República Checa, República Dominicana, Roménia, Rússia, San Marino, São Tomé e Príncipe, Seicheles, Senegal, Sérvia, Singapura, Sri Lanka, Suazilândia, Suécia, Suiça, Tailândia, Taiwan, Tajiquistão, Territórios Palestinos, Togo, Trinidad e Tobago, Tunísia, Turquia, Ucrânia, Uganda, Uruguai, Venezuela, Vietname, Zambia e Zimbabwe

domingo, 8 de março de 2015

13º longo cumprido, faltam 3

Com o Vítor com quem corri, enquanto tivemos o respectivo apoio das caras-metade Mafalda e Isa (desta vez de baixa)
Os dias vão passando e de hoje a 5 semanas chega o grande momento!

Num período de 17 semanas (entre 7 de Dezembro e 29 de Março), agendados 16 longos (seja em treino, a maior parte, ou em corrida), dos quais hoje foi o 13º

E correu muito bem! Após nas últimas duas semanas ter feito em ambas treinos de 30 km, esta era a semana de recuperação com um treino calmo de 20 Km.

Tive a sempre excelente companhia do Ultra Vítor e, na converseta, os quilómetros voaram entre Oeiras e a Parede, tendo acabado bem e sem sentir muito o esforço, o que é um óptimo sinal.
Obrigado Vítor pela companhia, força Isa para a completa recuperação!

Venha Paris que já estou a ficar impaciente com a espera! :)

sábado, 7 de março de 2015

Nelson Évora Campeão Europeu de Pista Coberta!


Nelson Évora sagrou-se hoje Campeão Europeu em Pista Coberta no Triplo-Salto, em Praga, onde chegou aos 17.15!

Um mais que justo e merecido prémio por tudo o que este atleta tem passado desde que foi Campeão Mundial em 2007 e Olímpico em 2008.

Uma sucessão de graves lesões que nunca levaram Nelson a desistir. Acreditou sempre que um dia regressaria em grande e eis a prova. Parabéns Nelson!!!

quarta-feira, 4 de março de 2015

Revista Atletismo de Março (a 400)


Já foi distribuída a Revista Atletismo de Março, com a particularidade de ser o número 400, o que para uma publicação mensal é obra!

Ia referir que este é um número especial, pelo tal número 400, mas cada número é sempre especial pois retrata o que se passou nos 30 dias anteriores no nosso desporto de eleição.

E neste número, o indíce é:

Competições Internacionais
Corta-Mato
14 Crosse das Amendoeiras em Flor
16 Taça dos Clubes Campeões Europeus de Crosse

Competições Nacionais
Estrada
14 Campeonato de Portugal de Maratona / Maratona do Funchal
22 Corrida dos Namorados
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40 anos do disco da minha vida



Faz este mês 40 anos que foi lançado o álbum Rubycon dos Tangerine Dream, aquele que elejo como o disco da minha vida.

É certo que nunca apreciei propriamente os termos livro/disco/filme da minha vida, quando ainda não vivemos tudo o que temos para viver e nunca sabemos o que iremos encontrar no futuro mas, como compreenderão pela minha descrição, este é o disco da minha vida, pelo que me influenciou.

Estávamos em 1975 e tinha 15 anos. A nível musical até ouvia mais da pesada. Certo dia, um amigo meu comprou um disco dum grupo e dum estilo pouco conhecido em Portugal. Eram alemães com um nome em inglês, Tangerine Dream, e o disco chamava-se Rubycon.

Esse meu amigo tinha adquirido o disco pela curiosidade dum estilo novo mas não o apreciou. Emprestou-mo. A sua audição foi uma verdadeira revelação, mudando por completo a minha percepção de música, abrindo novas fronteiras que só a sensação do som provoca. Comprei-lhe o disco e nunca mais fui o mesmo a nível musical. 

Por felicidade, os Tangerine Dream, cuja fundação remonta a 1967, continuaram a deliciar os seus fieis admiradores ao longo destas décadas, nunca deixando de criar e inovar música, estando editados mais de 200 álbuns (que tenho todos), entre originais e actuações ao vivo, como a de Lisboa em 25 de Março de 2010, data que cumpri o sonho de os ver actuar. Para mais, e após a introdução cénica, a primeira música a ser tocada foi um excerto de Rubycon!

Infelizmente, tudo terminou em Janeiro deste ano com o súbito falecimento de Edgar Froese, numa altura em que a sua veia criativa continuava imparável e com novos projectos musicais. E os Tangerine Dream eram Edgar Froese.

Verdadeiro génio musical (e inclusive de pintura), criou um som que os críticos musicais tentaram encaixar como "rock cósmico", "rock alemão", "música espacial", "música planar", "som estratosférico", etc. Passados uns anos deixaram de tentar catalogar para simplesmente chamar da única forma possível, "o som Tangerine Dream".  

Não quis deixar passar esta efeméride sem aqui a assinalar. Não sei quantas vezes nestes 40 anos já ouvi este disco. Um número incontável, sem dúvida. Mas ouvi-lo, é uma sensação única e um prazer sempre renovado, seja aos 15, 35 ou 55 anos. E isso é impagável!

Para quem esteja interessado em conhecer este disco, clique aqui (o disco é composto por um tema único de cerca 35 minutos, dividido em duas partes). Reconheço que será, talvez, o seu álbum mais complexo e difícil de ouvir para quem não aprecia o estilo. Para mim, estes sons são a perfeita integração do que sou.    

A formação em 1975: Edgar Froese, Chris Franke e Peter Baumann