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| Com Nuno, Sandra, Isa e Vítor junto ao Pavilhão com o nome da recordista nacional da Maratona, Rosa Mota |
Uma das muitas belezas no Atletismo é a variedade num pelotão. Desde aqueles que só pensam na vitória, seja à geral ou escalão, aos que lutam por baixar o seu tempo, até aos que querem superar-se e cruzar a meta.
Se isto é uma verdade, ganha contornos maiores numa corrida mítica como uma Maratona, prova que nos toma de assalto, faz-nos viver com a sua constante presença e oferece-nos sensações que não se explicam mas sentem-se de forma muito forte e eterna.
Conheço-me e sei que não tenho aptidões naturais a nível físico para distâncias destas, mas sou um sonhador e luto pelos sonhos.
E um sonho mágico era um dia fazer uma Maratona. O ter alcançado agora a terceira, já é um número que vai muito além do que sonhava há 2 anos atrás.
Mas para poder levantar a mão com 3 dedos, tive que penar muito. Esta foi, de longe, a que mais sofri nas 3 que concluí. Se em Lisboa o sofrimento foi naquela fase do muro entre os 30 e os 33, e em Sevilha, por algum toque de magia foi nulo, no Porto foi sempre a sofrer a partir dos 24. Mas sempre com a meta como objectivo. Apenas tive um momento de fragilidade aos 35 km. Um escasso minuto onde deitei tudo cá para fora. Um minuto em 311 que demorei, não é nada. Mas mesmo nesse minuto continuei a aproximar-me da meta.
Vim para o Porto com a certeza que estava a recuperar dos 2 desgastantes meses com aquele problema intestinal. A recuperar mas sem ter sido possível fazer treinos maiores que 24 km, e mesmo assim esse tinha sido fraco. Bons, apenas 3 Meias. Certo que em Sevilha estava pior mas alguma magia aconteceu nesse dia. De tal forma que ao 2º km já sabia que ia terminar enquanto neste domingo só tive a certeza quando cruzei a risca branca. Mas desistir nunca foi opção. Nem naquele tal minuto.
E pronto, já escrevi muito e ainda não passei da introdução, Com tanto que há para contar, o melhor é seguir a ordem dos factos.
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| Na feira da Maratona |
Sábado 8 da manhã. Hora de arrancar. Com a Mafalda, o filho Ricardo e o ultra casal Isa e Vítor que também iam para a sua 3ª Maratona de estrada.
Viagem calma, com algumas paragens para descomprimir, e chegada à Alfândega que não conhecia e surpreendeu-me, não fosse ela considerada o melhor centro de congressos de toda a Europa!
Se tivesse sido combinado, não teria sido mais perfeito, logo à entrada pude, finalmente, conhecer o grande Papa Kilometros Carlos Cardoso!
Após o dorsal recolhido e ter cruzado com muita gente conhecida, com a habitual troca de desejos que tudo corra bem, hora da Pasta Party num belo salão. E que bom estava o combustível, opps perdão, e que boa estava a massa!
Resto do dia com umas voltinhas na cidade, para terminar da melhor maneira num convívio com o Carlos Cardoso e simpática família (e uma cadela Tucha muito doce) e uma grande surpresa que foi a presença doutro ultra casal, a Anabela e Paulo.
O tempo voou e, lamentavelmente, não se podia ficar mais tempo pois no dia a seguir era dia de cedo erguer.
Noite relativamente bem passada (conseguir dormir 4 horas em véspera de Maratona foi bom, em especial por a anterior também ter sido bem dormida) e pequeno almoço com a expectativa natural dos grandes acontecimentos mas sem os, digamos, "nervos" que houve em Sevilha.
Mas como já tinha dito noutro artigo, não há Maratonas iguais e teria direito a esse momento mais à frente.
A logística era deixar a Mafalda e o Ricardo na partida para, após o tiro às 9 horas, irem a pé para a chegada que distava 5 km. Se de noite a coisa já tinha começado a correr mal para a Mafalda com dor de garganta que despoletou os seus problemas asmáticos, essa ida acabou por ser complicada pois perdeu-se e... foi parar a Matosinhos!!! Em vez de andar 5 km, deve ter andado uns 12 ou 13!
Fomos então para a chegada para estacionar o carro e apanhar os autocarros da organização que nos levaram à partida, junto ao Palácio de Cristal, Pavilhão Rosa Mota.
Depois de sairmos do carro, fiquei na dúvida se o tinha trancado. Voltei atrás e, de repente, o coração dispara a mil e uma grande dificuldade a respirar. Por outras palavras, ataque de pânico. Tanto quis reprimir os nervos naturais que descarregaram desta forma.
O que vale é que durou pouco tempo e no autocarro a coisa já estava melhor.
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| Antes da partida com o tri na mira |
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| A receber a energia da Mafalda... |
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| ... e do Ricardo |
Nessa altura estava frio mas com sol e sem nuvens. Afinal, a chuva não iria participar (ai não?!?).
No aquecimento, deu para entrar no Pavilhão Rosa Mota. Lindíssimo!!!
Muito atleta conhecido, muitas palavras de coragem e, após alguns desencontros, finalmente encontramos a Sandra e Nuno. Nuno que ia para a Maratona (grande prova!) e Sandra para a Family Race (16 km), com a intenção de ir furando o pelotão até me encontrar.
Quando damos por nós, já estamos no bloco de partida a ouvir aquela linda música que podem escutar aqui.
E aí vamos nós! Direcção Boavista, pelotão bem compacto, com uma imagem linda dos atletas a subirem para a Rotunda da Boavista, os quilómetros a passarem, a Sandra a apanhar-me, a Isa e o Vítor a seguirem no seu andamento mais forte e muita gente à volta. Seria assim até ao quilómetro 14, separação das duas provas e onde de repente desaparece meio mundo.
Esses 14 km passaram num instante ("culpa" da Sandra a quem muito agradeço a sua sempre imprescindível companhia), o andamento era o ideal e a máquina estava a responder bem.
Também deu para cruzar com a Filipa Vicente que ia na Family Race, e que já tinha visto na partida. Uma grande "culpada" da minha recuperação através dum plano nutricional adequado.
A Sandra dirigiu-se para a meta dos 16 km e eu segui, sempre controlado, sabendo que não deveria ir um passo mais à frente ou atrás, ia da melhor forma.
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| Em plena prova com a Sandra... |
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| ... e o momento da separação |
20 km e um pequeno susto. Uma dor na zona do coxis. Andei um pouco, fiquei confuso por o Vítor me ter passado, ele que ia bem à minha frente, mas depois percebi que tinha havido uma "paragem técnica". Após uma centena de metros, decidi retomar e a tal dor, tal como tinha vindo, tinha desaparecido. Provavelmente algum jeito e depois foi tudo ao sítio.
Já tinha passado o Carlos Pinto Coelho que estava com uma dor e tinha ido a uma tenda da Cruz Vermelha.
Continuei mas aos 24 km começou o sofrimento, natural pela falta de quilómetros que não pude ter em treinos.
Ok, tudo estudado. Altura para mudar para o plano de sobrevivência. Forçar-me, em cada quilómetro, a andar 200 metros para recuperar forças e correr depois 800, tendo que ser rigoroso neste esquema, por mais que dê vontade de andar mais do que 200. Disciplina férrea pois a meta está à minha espera. Principalmente nunca pensar que faltam ainda tantos e tantos quilómetros. Horas. Não olhar para o outro lado do rio e pensar que ainda há aquele rio para transpor. Seguir. Seguir sempre e nunca nunca parar. Andando e correndo, sei que consigo levar o barco a bom porto, se parasse, o retomar seria muito complicado.
O Carlos Pinto Coelho apanhou-me e foi uma fantástica companhia até aos 30. Ele precisava de parar em cada posto médico para colocar um spray que lhe aliviasse a dor mas nessa altura eu seguia (não podia parar!) e ele apanhava-me.
Porém aos 30 ficou para trás, o que me deixou preocupado pois não o vi mais. Mas cortou a meta!
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| Passada a passada rumo à meta |
Na Afurada já tinha cruzado com a Isa e Vítor e muitos amigos. Mas uma palavra especial para o Isaac e Elisabete pois iam na sua primeira Maratona e fiquei muito feliz por ver como iam bem e até deu para um "hi five".
Já novamente do lado do rio da Invicta, passo pela banda que estava em frente à Alfândega e onde interagimos de maneira gira.
Continuo sempre a gerir a crise, sempre a sofrer, mas só com a meta em mente. E pumba! Um sonoro trovão ecoou. Olho em frente. Está a ficar escuro...
Mais um e outro mas não chovia. Será que se vai aguentar? Vá lá... por favor... chuva agora não.
Aproximo-me do quilómetro 35. Estou a sentir-me muito cansado. Não no muro mas muito cansado. Mas continuo na mesma táctica de sobrevivência.
Começa a levantar-se um vento forte. Sinal de... Catrapumba! O céu abriu-se numa chuva diluviana, daquela que bate na estrada e salta. Água gelada!
De repente fiquei encharcado e gelado. Desespero. Porquê esta provação agora?!? Eu vinha a dar o melhor que tenho, vinha a portar-me bem, porquê isto?!? A chuva continua a encharcar-me e a gelar. E desato a gritar. Saíram-me todas aquelas palavras que não posso colocar aqui. Disse-as todas, as que conhecia e até as que desconhecia (felizmente numa altura que não havia atletas à frente nem atrás e, logicamente, ninguém na rua). E, por uns breves momentos pensei, em desespero "Eu já devia saber que não tenho capacidades para uma Maratona. Para que me meto nisto?!?"
Tal como pensei nessa frase, de imediato foquei-me no que interessava, a meta. Por vezes o cansaço faz-nos pensar em coisas que não queremos nem são verdadeiras.
Baixei um pouco a cabeça para a chuva não vir tão de frente e continuei no meu ritmo possível. Afinal, se pensava que a coisa estava a custar, agora é que ia doer.
Com os músculos massacrados, a água gelada só veio fazer mais mossa. Sabem o que acontece quando estamos de molho em água muito fria e os músculos começam a enregelar? Tendência para cãibra... Pois ao entrar na recta de cerca quilómetro e meio que nos leva, a subir, da rotunda do Castelo do Queijo à meta, as ameaças de cãibra estavam bem presentes. Ia no ritmo mais suave possível, notando que estava no limite da cãibra.
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| A cara não mente |
Se alguém quiser, um dia, convencer-me que cada quilómetro tem sempre mil metros, eu desminto categoricamente! Aquela recta tinha muitos e muitos quilómetros, não apenas o 41. Corria, daquela maneira, e não avançava. O pórtico que indicava a curva para a meta estava sempre à mesma distância. Estava no limiar do esgotamento. Há 18 quilómetros, há mais de duas horas, que sofria. Estava gelado mas só me importava com a meta. Tão perto e tão longe! Mas será que não avanço?!?
A 500 metros da meta vejo alguém que vem a correr em sentido contrário. É o Paulo Reis, grande herói da Maratona das Areias e Mont Blanc. Em silêncio, grito de alegria por ver alguém conhecido. Com a cara fechada, rio-me de satisfação por saber que vou ter um pouco de companhia (e que companhia!) para atenuar a distância que falta. Por dentro reagia mas por fora nada. Cada gesto poupado era cada gota de energia salvaguardada.
Pouco depois junta-se a Anabela. Apetecia abraçá-los mas as forças estavam só dirigidas para a meta. Ouço a Anabela dizer para não me esquecer de levantar o braço com os 3 dedos. Ouço e não respondo mas sei que eles compreendem. Vejo a Sandra aos berros a vir ter comigo, o Nuno com sorriso de orelha a orelha, a Ana Luísa Xavier a berrar o meu nome, o Ricardo a rir-se e a dizer que sim com a cabeça, a Isa e o Vítor a gritarem no lado direito e a Mafalda aos saltos, emocionada, no esquerdo, o Carlos Cardoso a filmar, a Aurora Cunha vem ter comigo e acompanha-me até à meta.
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| Com a Anabela e o Paulo, encharcados, a aproximar-me da curva que dava acesso à meta |
Vi tudo, senti tudo, absorvi tudo e tudo fica no meu coração. Mas não conseguia reagir. Meta, quero cortar a meta! A Aurora tenta puxar por mim para acelerar um pouco mas desperdiço uma oportunidade de interagir melhor com ela. Não conseguia ir mais rápido, tinha que ser aquela velocidade em modo automático. Entro na passadeira vermelha. Levanto o braço. Estico 3 dedos. E corto a meta!
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| Consegui! Sem imaginar o que se estava a passar lá atrás |
Cinco horas, onze minutos e trinta e cinco segundos após a partida, a Maratona estava terminada. Era tri-maratonista!
O Marco Lopes tenta falar comigo mas pouco digo (sei que compreendes, Marco!). Vou calmamente buscar o saco e sair da zona para ir ter com todos. Finalmente, tudo está acabado! (pensava eu).
Vejo o Vítor vir ter comigo, penso que para me cumprimentar. Abraço-o mas ele diz-me que houve um pequeno problema com a Mafalda, que terá batido com uma mão, mas estavam a vê-la e para não me assustar. Olho para lá e vejo 3 elementos da Cruz Vermelha a assisti-la. De imediato vou ter com ela. Estava branca! Terá sido mal acabei de passar, a querer fotografar-me na meta escorregou no lancil do passeio e caiu, batendo com todo o lado direito e, inclusive, ligeiramente com a cabeça. Com a dor aliada às emoções, sofreu um ligeiro desmaio.
Felizmente tudo não passou dum susto e recuperou muito rápido. Tem ali umas nódoas negras e umas ligeiras dores mas não a gravidade que poderia ter sido.
Regressámos ao carro e só tremia, não conseguindo controlar essa tremideira causada pela água gelada e pelo gelado que fiquei quando vi a Mafalda com 3 enfermeiros à sua volta.
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| À espera de sermos fotografados com a camisola da corrida e medalha. Qualquer segundo era bom para descansar :) |
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| E aí está a fotografia |
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| Está bem explícito nas costas da camisola. Finishers! |
Além de ter sido a Maratona mais sofrida das que terminei, foi também aquela que mais dorido fiquei. Felizmente, ficámos no Porto até ao dia seguinte e deu para passear um pouco, o que sempre ajuda a recuperar. E ontem até subimos e descemos os cerca de 200 degraus dos Clérigos! :)
Quanto à Maratona em si, foi tudo o que tinha ouvido dela. Muito bem organizada e bonita! E com um record histórico de mais de 4 mil classificados mas isso é motivo para outro artigo daqui a uns dias. Só esperava era mais apoio de público. Há quem registe esse apoio mas não o notei dessa forma, talvez por ir lá atrás.
Segundo a Mafalda era uma festa a chegada à meta mas, naturalmente, quando cheguei já tal não sucedia por causa da chuvada.
Agora vou passar um calmo mês de Novembro para no dia 7 de Dezembro, coincidindo com a Meia-Maratona dos Descobrimentos, iniciar a minha preparação para Paris. Sei que é mais de 4 meses antes mas já que não pude ter nestas 2 últimas Maratonas a preparação ideal, vou prescindir de muita corrida que gosto para poder preparar o melhor possível Paris. Espero que não haja mais imprevistos como nestas anteriores, para poder chegar lá e fazer uma Maratona "comme il faut!".
Posso ter feito a terceira mas tenho mais 3 agendadas. Paris e Lisboa 2015, Barcelona 2016.
E parabéns! Se conseguiram chegar até aqui neste longo relato, também têm alma de maratonistas :)