terça-feira, 7 de outubro de 2014

A evolução da Maratona em Portugal e os números record de domingo


Afirmar-se que os atletas perderam o medo à distância, não é uma frase feita mas sim a realidade.

E essa realidade tem sido bem evidente em Portugal onde a participação não pára de aumentar, de edição em edição, tanto em Lisboa como no Porto.

A 2ª Rock'n'Roll Maratona de Lisboa foi um sucesso a esse e restantes níveis, com a obtenção de 4 de 5 possíveis records das Maratonas disputadas em Portugal. A saber:

- Maior número de classificados. Era de 2.763 alcançados no Porto em 2013, passou a 2.865
- Maior número de estrangeiros. Era de 872 no Porto em 2013, passou a 1.513 (quase dobro)
- Tempo masculino mais rápido de sempre em solo nacional. Era de 2.09.46 realizados por Paul Lonyangata na 1ª edição desta Maratona, foi agora batido por quase minuto e meio por Samuel Ndungu com 2.08.21
- Tempo feminino mais rápido de sempre em Portugal. Vinha do longínquo 1995, quando na Maratona de Lisboa Birgit Jerschabek marcou 2.28.02, tendo agora Visiline Jepkesho batido por mais dum minuto, fixando-o em 2.26.47
O único record que não foi batido foi do maior número de portugueses, pois classificaram-se 1.352 contra o record do Porto no ano passado com 1.891

Mas, como as coisas estão a evoluir, no Porto é provável que o record de participação sofra novo incremento. 
Se até há pouco tempo sonhava-se com uma Maratona com mil participantes, será a 2 de Novembro que se baterá a barreira dos 3 mil?

Vamos agora analisar o que tem sido a evolução da participação em Maratonas portuguesas desde a primeira que se realizou (a única ainda em tempo de monarquia):

1910-05-02
Jogos Olímpicos Nacionais (Lisboa)
10
1911-06-18
Jogos Olímpicos Nacionais (Lisboa)
22
1978-04-09
Campeonato Nacional (Faro)
23
1979-04-22
Campeonato Nacional (Portalegre)
27
1980-04-20
Inatel (Foz do Arelho)
37
1980-10-12
A.A.L. (Torres Vedras)
45
1981-04-05
Campeonato Nacional (Faro)
49
1982-04-04
Campeonato Nacional (Almeirim)
56
1982-12-20
Spiridon (Autódromo Estoril)
127
1983-12-18
Spiridon (Autódromo Estoril)
176
1984-11-03
A.A.L. (Lisboa)
324
1988-11-06
Xistarca (Lisboa)
442
1990-10-21
Xistarca (Lisboa)
562
1991-10-20
Xistarca (Lisboa)
775
2007-12-02
Xistarca (Lisboa)
825
2008-12-07
Xistarca (Lisboa)
1.005
2009-12-06
Xistarca (Lisboa)
1.153
2010-11-07
Porto
1.180
2011-11-06
Porto
1.515
2012-10-28
Porto
1.671
2012-12-09
Xistarca (Lisboa)
1.681
2013-10-06
Rock'n'Roll (Cascais-Lisboa)
1.836
2013-11-03
Porto
2.763
2014-10-05
Rock'n'Roll (Cascais-Lisboa)
2.865

De salientar que entre 1910 e 2007 (97 anos), registaram-se 14 records de participação e nos últimos 7 anos temos nada menos que 10.

Evolução do melhor tempo masculino:

1910-05-02
J.Olímpicos Nacionais (Lisboa)
Francisco Lázaro
2.57.35
1912-06-02
J.Olímpicos Nacionais (Lisboa)
Francisco Lázaro
2.52.08
1936-07-05
Camp.Nacional (Lisboa-Estoril)
Manuel Dias
2.37.20
1937-03-28
Camp.Nac.(Lisboa)
Manuel Dias
2.30.38
1954-04-11
Camp.Nac.(Lisboa)
José Araújo
2.21.00
1971-04-04
Camp.Nac.(Lisboa)
Armando Aldegalega
2.20.42
1976-03-14
Camp.Nac.(Faro)
Anacleto Pinto
2.14.36
1987-11-08
Xistarca (Lisboa)
Gualdino Viegas
2.13.59
1992-10-18
Xistarca (Lisboa)
Jacob Ngunbu
2.13.34
1993-11-28
Xistarca (Lisboa)
Said Er-Rmili
2.12.29
1994-11-27
Xistarca (Lisboa)
Zbigniew Nadolski
2.11.57
2006-10-15
Porto
Lawrence Saina
2.09.52
2011-11-06
Porto
Philemon Baaru
2.09.51
2013-10-06
Rock'n'Roll (Cascais-Lisboa)
Paul Lonyangata
2.09.46
2014-10-05
Rock'n'Roll (Cascais-Lisboa)
Samuel Ndungu
2.08.21

Evolução do melhor tempo feminino:

1980-10-12
A.A.L. (Torres Vedras)
Idalina Santos
3.48.22
1981-11-29
Torres Vedras
Idalina Santos
3.31.30
1983-04-09
Camp.Nacional (Faro)
Rita Borralho
2.45.50
1984-04-08
Camp.Nacional (Almeirim)
Conceição Ferreira
2.44.56
1988-11-06
Xistarca (Lisboa)
Janete Mayal
2.43.11
1990-10-21
Xistarca (Lisboa)
Manuela Dias
2.40.37
1991-10-20
Xistarca (Lisboa)
Rita Borralho
2.38.39
1992-10-18
Xistarca (Lisboa)
Ekaterina Khramenkova
2.38.17
1993-11-28
Xistarca (Lisboa)
Manuela Machado
2.31.31
1995-11-26
Xistarca (Lisboa)
Birgit Jerschabek
2.28.02
2014-10-05
Rock'n'Roll (Cascais-Lisboa)
Visiline Jepkesho
2.26.47

Destaque ainda para o facto da Maratona deste domingo ter juntado atletas de 56 países diferentes!
Como já foi referido, foram 1.513 estrangeiros. Juntando-se aos praticamente 2 mil que estiveram na Meia-Maratona, temos que só atletas de fora vieram mais de 3.500, a que se junta familiares, e temos uma pequena ideia do potencial económico que este evento representa para o país.

Atletas classificados na Maratona por país:

Portugal
1.352
França
355
Espanha
226
Grã-Bretanha
220
Itália
106
Holanda
76
Alemanha
64
E.U.América
64
Polónia
52
Finlândia
37
Suiça
36
Bélgica
35
Brasil
25
Suécia
24
Irlanda
22
Estónia
16
Áustria
15
Rússia
13
Noruega
12
Canadá
11
Dinamarca
9
México
9
Roménia
9
Quénia
7
Hungria
6
Venezuela
6
Costa Rica
5
Etiópia
4
Luxemburgo
4
Marrocos
4
Ucrânia
4
África do Sul
3
Colômbia
3
Hong Kong
3
Argélia
2
China
2
Irão
2
Israel
2
Panamá
2
Turquia
2
Afeganistão
1
Albânia
1
Arábia Saudita
1
Austrália
1
Bulgária
1
Croácia
1
Emirados Árabes Unidos
1
Gabão
1
Letónia
1
Malásia
1
Moldávia
1
Nova Zelândia
1
Porto Rico
1
Singapura
1
Taiwan
1
Uruguai
1

domingo, 5 de outubro de 2014

Correr feliz na Meia da Vasco da Gama

Os 4 ao km presentes: Eu, Marta, Carla e Eberhard 

Os meus parabéns a todos os que conquistaram hoje a Rock'n'Roll Maratona de Lisboa, com uma palavra muito especial a quem se estreou nesta distância e entrou no clube de Maratonistas :)

Como é sabido a minha preparação para a Maratona do Porto, aquela que espero seja a minha 3ª, andou pelas ruas da amargura. Finalmente, na semana passada, a Meia de Coimbra correu-me muito bem, fazendo renascer os níveis de confiança que estavam a aproximar-se perigosamente do zero.

Hoje, era o dia que iria confirmar se a evolução era real, ou concluir que tudo não tinha passado da excepção que confirma a regra.

Claro que não vale a pena fazer suspense pois a esta hora já sabem perfeitamente para que lado pendeu a dúvida, basta ler o título!

Tinha um ritmo (ambicioso) na cabeça e queria aguentá-lo durante os 21 km, começando desde o tiro de partida, sem sequer ter feito aquecimento por impossibilidade de espaço. 
Apesar disso, a pulsação não disparou, mantendo-se bem controlada. Tudo estava a correr bem, havia que replicar durante 21 km. O que sucedeu, fazendo uma Meia estilo relógio suíço, com escassa variação entre cada mil metros, e terminando 5.31 melhor que Coimbra, cortando a meta em 2.07.12, um tempo que me deixa muito feliz e vejam porquê:
- Melhor tempo do ano em Meias
- Melhor tempo de sempre nesta Meia
- 9º tempo entre as minhas 37 Meias
- 2º melhor tempo em Meia-Maratona desde Novembro de 2011 (apenas batido pelos estratosféricos 1.58.26 na Meia dos Descobrimentos de Dezembro passado, numa prova onde deitei para fora toda a raiva que vinha desde a falhada Maratona)


A alegria a escassos metros da meta
Razões para esta súbita melhoria de rendimento, vejo duas:
- Nunca ter deixado de batalhar quando tudo corria mal, sabendo que só assim poderia ter alguma esperança e que o trabalho árduo haveria de compensar
- Um seguimento nutricional adequado a este tipo de esforços e que em tão pouco tempo está a dar tão bons resultados (obrigado Filipa Vicente!)

Claro que estamos a apenas 4 semanas da Maratona quando este renascimento de forma deveria ter acontecido a dois meses de distância.
Claro que acabei os 21 a sentir que pouco mais poderia correr
Claro que já perdi o comboio para realizar treinos maiores de 27 e 30
Mas... é o que temos e é com toda a minha força de vontade que vou cortar a meta no Porto com 3 dedos no ar.
Claro, ainda não com o tempo que julgo estar um dia ao meu alcance, quando poder ter a preparação ideal, mas a prioridade numa Maratona é derrubar a meta. Venha ela!

Quanto à Meia em si e sua organização, tudo como já nos habituaram, mas também uma palavra de desagrado para muitos atletas que, infelizmente, não pensam que há mais atletas a correrem e deixam em pleno percurso inúmeras garrafas com água e tampa fechada (uma autêntica armadilha para entorses) e os que deixam cascas de banana e laranjas ali a semear futuras quedas. É tristemente habitual nestas Meias das Pontes e não são meia dúzia. Utilizem os neurónios para pensarem (é que pensar não é usar pensos!)

De registar que na Maratona, alcançou-se novo record nacional de participação, eram 2.763 no Porto 2013, hoje concluíram 2.865, e também se bateu o record da Maratona mais rápida em solo nacional. Era de 2.09.46 realizados nesta Maratona no ano passado e hoje o queniano Samuel Ndungu marcou 2.08.21 
Mas como não há duas sem três, nunca também em solo nacional uma atleta feminina tinha corrido tão rápido, pois Visiline Jepkesho marcou 2.26.47

E para terminar, bateu-se largamente o record de participação nesta Meia. Era de 4.893 em 2012 e hoje foram 5.774 os que cortaram a meta.


Com o Isaac após a chegada, Isaac que vai estrear-se na mítica distância no Porto


quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Um significado especial


Há uns anitos atrás, assisti ao Triatlo de Oeiras. Estava junto à cauda da baleia a apreciar o sector de natação, quando ouvi um indivíduo ao meu lado a comentar para a mulher o facto de uns nadadores estarem quase a sair da água enquanto outros ainda não tinham dobrado a bóia "Olha aqueles tão para trás! O que é que estão aqui a fazer?". E quando saíram da água e se dirigiram às bicicletas, mais espantado esse homem ficou "Para que é que continuam se já não podem ganhar?".

Como explicar a alguém que está fora do contexto, que vencedores há muitos e diversos ao longo dum pelotão? Como explicar, e dando como exemplo a Maratona (que só penso nisso!) que há quem chegue nos primeiros lugares e fique frustrado por ter feito mais um minuto do que o planeado, enquanto lá bem para trás há quem corte a meta com mais de 5 horas, de lágrimas nos olhos de tanta emoção e a sentir-se um campeão a entrar no Olimpo? 

Cada um de nós, atletas de pelotão, tem os seus sonhos, ambições e metas, sempre consciente dos seus limites e dificuldades.

Sem imaginar que um dia iria correr um quilómetro que fosse, quanto mais 42, sempre tive o fascínio das Maratonas e desde que me conheço que seguia avidamente as transmitidas na televisão. 
Apesar de imaginação fértil e de ser um sonhador, nunca me imaginaria a concluir uma proeza com essa distância, mesmo quando comecei a correr e via os 10 quilómetros como o meu limite dos limites e uma Meia-Maratona como algo inatingível.

Mas a evolução que sofremos quando somos tomados pela paixão corrida, leva-nos a situações verdadeiramente impensáveis. E uns meses após ter terminado a minha primeira Meia, que por sinal correu bastante mal, comecei a sonhar com uma Maratona.

Durou 5 anos e meio até alinhar na partida duma corrida de 42.195 metros, prova que nos toma completamente de assalto e nos faz viver em função dela.
Alguns problemas fizeram atrasar a decisão para o grande momento, em especial o medo e a constatação que uma Maratona é um passo maior que a minha perna. Mas o ser maior que a minha perna (e continua a ser), não é nem foi óbice para tentar e conseguir.

A intenção sempre foi fazer uma, apenas uma. Que foi conseguida no meu primeiro dia mágico. Mas, pouco tempo depois, o bichinho atacou novamente. Como se sabe, e apesar de ter sido a que melhor preparado estava, uma inesperada crueldade obrigou à dolorosa desistência.
Mas o tal bichinho estava instalado de armas e bagagens e a 2ª meta foi cortada em Sevilha, no meu segundo dia mágico e aqui um verdadeiro milagre pelo problema que estava a afectar-me.

Próxima, Porto, de hoje a um mês. E dou por mim a pensar que, caso corte a meta, será a minha terceira Maratona. Terceira! O meu tri!

Para quem é conhecedor das suas fracas capacidades para tão longas distâncias, este número começou a batalhar-me na cabeça. Tri! Fazer uma foi um feito, fazer segunda foi, não um feito mas um super feito pois estava a recuperar duma infecção pulmonar e realizei a corrida da minha vida, fazer uma terceira é já algo de muito grandioso para alguém como eu.

Por isso, tenho dito a algumas pessoas que quero cortar a meta no Porto com 3 dedos no ar. Porque tem um significado especial para mim, o reconhecer-me como tri-maratonista. 

Apesar da inconstância que tem sido esta preparação, espero que no próximo domingo se mantenha a evolução registada finalmente em Coimbra, há que continuar a trabalhar para esse grande objectivo com todo o empenho que utilizo em tudo o que me meto. 
Para poder cortar a meta como a fotografia em cima demonstra.
Falta um mês!